O avião manteve-se em espantoso equilíbrio mesmo entre as nuvens, ondeava suavemente como o corpo que se remexe ao mais calmo dos sonos, meus pés aos poucos deixava o chão do transporte em liberdade e os pedais do nervosismo perderam a constância, dando lugar à serena estaticidade. Reaberto o céu, avistei o sol em sua desistência diária, tão próximo que tocá-lo passou-me em pensamento como possibilidade. Eram cinco e trinta e quatro, em menos de uma hora aterrissaríamos em Recife, papai se distraía com um filme de Tarkovsky em seu recente DVD portátil, tinha o estranho costume de, quando perguntado sobre o que estava assistindo ou lendo, respondia mencionando o escritor, diretor, sem jamais dizer o nome da obra. “Um filme de Kurosawa, o último de Saramago”, e retornava a atenção às histórias que tanto idolatrava. Evitei perguntar o título, então, encostando a cabeça na esperança de um cochilo abreviar a chegada, o chope na praia, o cheiro de mar.
Despertei com a voz do comandante, a maioria das pessoas ao redor tinha no rosto a expressão de quem retorna da guerra, a turbulenta comunhão entre esgotamento e alívio, dor e paz. Papai assim estava. Um pouco assustado, desejei um espelho, provar que minha felicidade não tinha olheiras. Adentrei num obscuro paul de pensamentos naqueles últimos instantes de viagem, a distonia mental impossibilitou-me até de perceber o choque das rodas no solo, de olhos abertos eu não enxergava nada além de um abissal oceano de dúvidas e receios. O que me traria a volta? Novos projetos, antigas fissuras, para onde apontar os dedos cansados de se fecharem em murro? Reintegrar-se à egrégia aura acadêmica, mais seis meses, suportar o campus de hematófagos comunicadores sociais, o jornalismo flagicioso encoberto pela luz superficial de homens-fuzis. Liquidificado pelas náuseas do espírito, desci do avião ao lado do velho, puto por ter de interromper o filme já em seu desfecho. Meu irmão nos aguardava com a esposa, a frieza na recepção calorosa era visível, mesmo assim senti-me confortado. O habitual congestionamento na Mascarenhas de Moraes reforçava a certeza de estar novamente no aconchego uterino, o ar sem ar, desincronização dos semáforos, eu em trânsito, mas definitivamente em mim.
sábado, 30 de outubro de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
jangadeiro.
Meu mar me abandonou, amor. Só areia e rocha neste sertão litorâneo, sobrou foi dor inundada, eu bem suspeitei. Não éramos mais os mesmos, carinho, o tempo repeliu carícias como o intenso brilho do sol afasta pupilas. Ardeu demais. Incêndio irreparável, devastando minhas plantas, olha as folhas sem cor, enterradas aos pedaços. Agora é tudo uma coisa só: areia e cinzas. Os coqueiros, dá pra enxergar, afeto?, secos, sem frutos, igualzinho a mim, um côco ao inverso, escuro por dentro. E eu nem culpo o estrangeiro. Quais perspectivas tenho, quando danado o continente trocará de lado e a neve me contemplará com um casarão de jardim e garagem? Acho difícil. Quase impossível, abraço, um guindaste me agarrar pelas costas e me elevar à classe superior. Eu que estou nem aí pra dinheiro, verde só meu matagal, azul?, azul do meu céu bipolar, somente ele, muito obrigado pelos conselhos, daqui eu não saio, não. Pra alimentar piada na boca do povo? Porque a graça de rir dos outros é covardia de quem não se alcançou. Ainda perambula dentro de si, como larva presa no casulo.
É revolta de furacão, mesmo, mas de que adianta? Tirar o teto, rachar as paredes, vá, me diga, de que vai me servir matar o canadense se junto com ele a alma dela se enterrará? Prefiro minha solidão companheira, desde quando fazia castelinhos na praia, ninguém via mas eu ria, porque mandava nos soldados de palitos de picolé. E os amendoins cozidos eram as cabeças dos traidores que rolavam à cova d'água, por trás da colossal construção, e eu ria. Só, como um lunático, desde menino. Por isso me apeguei tanto, paixão, quando ela fez de mim sua morada. Era um dilúvio de saliva, ali mesmo, naquela varanda sob os olhos do mundo, lembro como fosse hoje, ela em cima, me remando, e a cadência levando-nos aos mais remotos pedaços de chão do mundo, duas marolinhas, sem pressão atmosférica, apenas encanto. E perdoe eu me avermelhar deste jeito, viu, ficar com o rosto como quem tomou banho, desculpe pelo embaraço. Ela parece ter ativado, ao abandonar a aldeia, um interruptor dentro de mim para, sempre que meus pensamentos a visitarem, uma discreta cachoeira escorrer dos olhos como agora.
Mas estou melhorando. Achar você, nessa gaveta empoeirada pelas estações, me trouxe um pequeno conforto. 3x4, pequenina e simétrica, gigantesca ao meu coração de pus. Sorte sua, ter o rosto dela impregnado ao seu, ela sorrindo, fazia tempo ela não sorria assim pra mim, e pra você ela fará isso para sempre. Não é inveja, ou talvez até um pouco, não ligue para minhas falhas. Só peço que se mantenha assim, viva, mesmo perdendo cor, textura, viva para o mundo, viva para mim, que mão nenhuma a rasgue, parta no meio como ela me fatiou. Eu que nem tenho carteira para guardá-la devidamente. Vou colá-la na porta da geladeira, pode ser? E que me nutra a cada alimentação realizada, a força da carne, observa-me daí, enquanto durmo, enquanto pesco, durante os recessos mais angustiantes. Eu hei de me restabelecer, prometo, nadar longos minutos como antigamente, recuperar o peso, se ela me encontrasse deste jeito capaz de rir na minha cara, perguntar se contraí aids. Vai que um dia o navio em que ela está naufraga, o avião pousa forçado aqui mesmo, nas mesmas ondas onde tanto dançamos flutuantes, os pés sem tocar o solo, o sol tocando-nos de longe. Minha vitalidade juvenil deixou rastros, ainda consigo resgatá-la, ao contrário de Simone. E eu não consigo cumprir a estúpida promessa de jamais repetir seu nome, parece maldição de Zeus, basta olhar a rede que a última sílaba se transforma em preposição; de Simone. O sofá, a banheira, meu antigo som portátil, tudo. Tudo é dela. Sempre foi. E o meu medo é nunca deixar de ser.
Um ano e dois meses não é nada, é? Daqui a pouco, entre uma chuva e outra, esquecerei sem sequer lembrar que esqueci, sua imagem permanecerá mas como um mancha que um dia sangrou e feriu, sem incomodar, apenas ali, presente, e inseparável. Ou você acha, minha linda, que eu vou envelhecer remoendo essa dorzinha insuportável? Com essa idéia absurda de te repatriar em minhas coxas, ein, miserável, você acha que eu sou o quê?, um mísero platelminto sem reações?, tenho 29 anos na cara, não vou deixar que uma putinha de Recife me arranque os cabelos precocemente. Meu Pai, mãe do céu, o que é que eu fiz, não, não, onde está a cola, cadê a porra da cola, puta que pariu, minha vida, me perdoa, você conhece minha impulsividade. É mais fácil eu colar os dedos do que seu pequeninos detritos, e ainda mais estas lágrimas de bosta a me atrapalhar o serviço, não dá. Desculpa, é impossível, nem com costura, tudo amassado, picotado, não há como reparar. Desculpa. Não há.
É revolta de furacão, mesmo, mas de que adianta? Tirar o teto, rachar as paredes, vá, me diga, de que vai me servir matar o canadense se junto com ele a alma dela se enterrará? Prefiro minha solidão companheira, desde quando fazia castelinhos na praia, ninguém via mas eu ria, porque mandava nos soldados de palitos de picolé. E os amendoins cozidos eram as cabeças dos traidores que rolavam à cova d'água, por trás da colossal construção, e eu ria. Só, como um lunático, desde menino. Por isso me apeguei tanto, paixão, quando ela fez de mim sua morada. Era um dilúvio de saliva, ali mesmo, naquela varanda sob os olhos do mundo, lembro como fosse hoje, ela em cima, me remando, e a cadência levando-nos aos mais remotos pedaços de chão do mundo, duas marolinhas, sem pressão atmosférica, apenas encanto. E perdoe eu me avermelhar deste jeito, viu, ficar com o rosto como quem tomou banho, desculpe pelo embaraço. Ela parece ter ativado, ao abandonar a aldeia, um interruptor dentro de mim para, sempre que meus pensamentos a visitarem, uma discreta cachoeira escorrer dos olhos como agora.
Mas estou melhorando. Achar você, nessa gaveta empoeirada pelas estações, me trouxe um pequeno conforto. 3x4, pequenina e simétrica, gigantesca ao meu coração de pus. Sorte sua, ter o rosto dela impregnado ao seu, ela sorrindo, fazia tempo ela não sorria assim pra mim, e pra você ela fará isso para sempre. Não é inveja, ou talvez até um pouco, não ligue para minhas falhas. Só peço que se mantenha assim, viva, mesmo perdendo cor, textura, viva para o mundo, viva para mim, que mão nenhuma a rasgue, parta no meio como ela me fatiou. Eu que nem tenho carteira para guardá-la devidamente. Vou colá-la na porta da geladeira, pode ser? E que me nutra a cada alimentação realizada, a força da carne, observa-me daí, enquanto durmo, enquanto pesco, durante os recessos mais angustiantes. Eu hei de me restabelecer, prometo, nadar longos minutos como antigamente, recuperar o peso, se ela me encontrasse deste jeito capaz de rir na minha cara, perguntar se contraí aids. Vai que um dia o navio em que ela está naufraga, o avião pousa forçado aqui mesmo, nas mesmas ondas onde tanto dançamos flutuantes, os pés sem tocar o solo, o sol tocando-nos de longe. Minha vitalidade juvenil deixou rastros, ainda consigo resgatá-la, ao contrário de Simone. E eu não consigo cumprir a estúpida promessa de jamais repetir seu nome, parece maldição de Zeus, basta olhar a rede que a última sílaba se transforma em preposição; de Simone. O sofá, a banheira, meu antigo som portátil, tudo. Tudo é dela. Sempre foi. E o meu medo é nunca deixar de ser.
Um ano e dois meses não é nada, é? Daqui a pouco, entre uma chuva e outra, esquecerei sem sequer lembrar que esqueci, sua imagem permanecerá mas como um mancha que um dia sangrou e feriu, sem incomodar, apenas ali, presente, e inseparável. Ou você acha, minha linda, que eu vou envelhecer remoendo essa dorzinha insuportável? Com essa idéia absurda de te repatriar em minhas coxas, ein, miserável, você acha que eu sou o quê?, um mísero platelminto sem reações?, tenho 29 anos na cara, não vou deixar que uma putinha de Recife me arranque os cabelos precocemente. Meu Pai, mãe do céu, o que é que eu fiz, não, não, onde está a cola, cadê a porra da cola, puta que pariu, minha vida, me perdoa, você conhece minha impulsividade. É mais fácil eu colar os dedos do que seu pequeninos detritos, e ainda mais estas lágrimas de bosta a me atrapalhar o serviço, não dá. Desculpa, é impossível, nem com costura, tudo amassado, picotado, não há como reparar. Desculpa. Não há.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Para vossas almas; especialmente à minha.
O labirinto nunca estreitou tanto. Perdido em frio, ziguezagueando por linhas retas, quais metas, em que ponto finquei as solas, no solo, só. E a fraqueza que não permite passos longos, movimentos ágeis, decisões. Tudo machuca, por todos os lados, uma balsa atravessando a testa, sangue até o pé, escorre, escorre, forma a poça onde afundo, submerso. Tudo adoece, como com os de imunidade baixa, uma voz mais alterada, um roteiro preguiçoso, uma foto desfocada, resulta em febre e indisposição. O espírito a se espremer no corpo, como trabalhadores em transportes lotados, espaços preenchidos de dor, preocupações, por se arrebentar e escorrer, escorrer, pelo ralo inevitável da morte. Às baratas. Porque morrer é olhar-se no espelho íntimo, real, não o pedaço de matéria onde nossa suposta beleza se envaidece por horas a fio. Fios perfeitos, maquiagem impecável. Pra virar rato. Gigantescamente humildes. Porque se há algo a se aprender com um rato, é a humildade. Aprender a viver no esgoto como quem se bronzeia à beira de uma piscina luxuosa. Roer o mínimo. Mas não, a ambição de gavião voa mais alto, expandir novos horizontes em poucas horas, valer a pena, a vida tem que valer a pena, pena, sinto apenas pena, pois no fim não sobrará uma pena sequer de lembrança para os que ficarem. Desistam da tola ideia de ser alguém na vida. Reconhecimento. Trajetórias resumidas a papéis. Amarelados pelas estações. A essência do universo vagueia dentro de cada um, escalando tripas, aterrissando em pulmões, basta olhar ao inverso, verão claramente, como límpidas nuvens numa agradável tarde de verão.
terça-feira, 29 de junho de 2010
training.
Tinha um beija-flor tatuado na nuca. A ave beijava o sobrenome, o néctar, as asas como hélices, estáticas no desenho. Eram pretas, as asas, o beija-flor, a flor, a penumbra íntima que alcançava a arte no corpo branco e rubro de Simplícia. Lia um livro volumoso, a domadora de beija-flores, a cabeça parecia magnetizada pelo “O Idiota”, de Dostoiévski. Porque era autor da moda, a universidade tinha grupos de estudos literários, Fiódor era um dos deuses aclamados, entendo o porquê mas discordava veementemente, sempre os de fora tinham ouro nas veias, Bandeira fora maior, Lispector, Drummond, Graciliano. Não, não era xenofobia, porém sempre priorizei nossa produção, célebres pensadores da mesma pátria-canil cujas chagas e conquistas eram tão belamente narradas. Dostoiévski estava um degrau acima de muitos, mas na escadaria inferior de tantos outros. Devo ter pensado alto, em algum momento, percebi seu ar de reprovação a me metralhar, os dois olhos de limão em brasas, ardendo e cuspindo, O discernimento é uma glória, não é mesmo?, E como é!, eu ria maliciosamente, ela em pensamentos me esfaqueava, não há coisa mais deliciosa que raiva feminina. Abracei-a como quem brinca, e eu não brincava, mas jamais fomentava discussão com Simplícia, lembro-me de apenas um forte desentendimento à porta de uma casa de shows. A babel me tonteava tão quanto um furacão, havíamos usado LSD na mesma noite, horas antes, ela andava sobre águas e sorria sem pudor, a alça da blusa arriada, eu ouvia mosquitos, aranhas, as patas saindo pelo meu nariz, eu não sei se gritava para mim ou para os outros, mas lembro claramente de sua imagem, vociferava contra mim, brilhante e esverdeada, apontava-me o dedo como quem aponta uma arma carregada, eu tremia e ria e chorava, tinha vontade de arrancar a língua. Terminamos a noite ali, um pouco mais à frente, os dois deitados na areia imunda de Boa Viagem, os riscos que faziam rir; assalto, estupro e tubarão. Nadamos nas ondas frias, numa das noites mais quentes do ano na cidade. E em mim.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Como alimentei os vermes.
A ilha anoitecia brumosa
pouco se via, mesmo à luz da lua
defenestrado e semi-cego, apanhei uma garrafa na adega
escutava talheres se suicidarem às minhas costas
o chão da cozinha em bernarda
eu sabia onde Ferro enterrara a droga, mas relutei
em minha posição de platelminto me mantive
calado, débil
e rastejante.
Ao afundar os pés na areia chorosa da noite
um reboco meu desgarra
cedo à gravidade, e deito como quem morre
seria, talvez, meu atestado de óbito
permanecer, fugir, arrancar-me a vida
a impossível alforria que voava para outro hemisfério
e lembrar
que tudo começou há cinco meses
cem gramas, um final de semana
para minhas pernas serem alvo de serrotes
já sentia a fetidez da necrose
infestando minhas narinas vermelhas
o pó do início
em pó no final.
As imarcescíveis lembranças de Dalva golpearam-me como facas
ao lugar de dor, uma minúscula esperança
de sorrir uma vez mais
esparramar minha boca por sua pele
porque a simplicidade ocupava nossas tardes tão manhãs
as ondas trêfegas quebravam surpreendentemente calmas
e a cada visita, carregavam-me um músculo
vou me entregar, Pai
ao departamento oceânico dos desfalcados
prefiro uma partida analisada, por mais angustiante
juro como vou
não é preciso se levantar, posso rolar até o definitivo encontro com as águas
e deixar.
Além, sobre os aviões, poltronas de nuvens
aquém, sob os passos, correntes eletrificadas
quem semeou a realidade póstuma?
um mudo
um medo
como o que sinto nesta escuridão infinita
desistindo da ideia covarde
meu celular vibra, meu coração
a mensagem de Ferro diz que,
se honro os testículos,
devo retornar imediatamente à casa-purgatório
o vinho se esgota
e esgotado refaço o caminho que há pouco fiz
ao contrário.
Aberta a porta
de incertezas e questionamentos
em segundos tornou a fechar
como as automáticas assim fazem
quando ninguém por perto está.
pouco se via, mesmo à luz da lua
defenestrado e semi-cego, apanhei uma garrafa na adega
escutava talheres se suicidarem às minhas costas
o chão da cozinha em bernarda
eu sabia onde Ferro enterrara a droga, mas relutei
em minha posição de platelminto me mantive
calado, débil
e rastejante.
Ao afundar os pés na areia chorosa da noite
um reboco meu desgarra
cedo à gravidade, e deito como quem morre
seria, talvez, meu atestado de óbito
permanecer, fugir, arrancar-me a vida
a impossível alforria que voava para outro hemisfério
e lembrar
que tudo começou há cinco meses
cem gramas, um final de semana
para minhas pernas serem alvo de serrotes
já sentia a fetidez da necrose
infestando minhas narinas vermelhas
o pó do início
em pó no final.
As imarcescíveis lembranças de Dalva golpearam-me como facas
ao lugar de dor, uma minúscula esperança
de sorrir uma vez mais
esparramar minha boca por sua pele
porque a simplicidade ocupava nossas tardes tão manhãs
as ondas trêfegas quebravam surpreendentemente calmas
e a cada visita, carregavam-me um músculo
vou me entregar, Pai
ao departamento oceânico dos desfalcados
prefiro uma partida analisada, por mais angustiante
juro como vou
não é preciso se levantar, posso rolar até o definitivo encontro com as águas
e deixar.
Além, sobre os aviões, poltronas de nuvens
aquém, sob os passos, correntes eletrificadas
quem semeou a realidade póstuma?
um mudo
um medo
como o que sinto nesta escuridão infinita
desistindo da ideia covarde
meu celular vibra, meu coração
a mensagem de Ferro diz que,
se honro os testículos,
devo retornar imediatamente à casa-purgatório
o vinho se esgota
e esgotado refaço o caminho que há pouco fiz
ao contrário.
Aberta a porta
de incertezas e questionamentos
em segundos tornou a fechar
como as automáticas assim fazem
quando ninguém por perto está.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
pedaço solto.
Fortunato transformou-se num terçol sem cura. Sua presença me incomodava tal como uma rasura em documento original, corretivo algum seria capaz de amenizar o martírio, as orações não surtiram efeito. Deus sabe o quanto pelejei, promessas para cada santo, foi meu erro este fuzuê de preces que apenas pediam milagres, nunca agradecimento. Eu assistia à decadência dele, inevitavelmente a minha, mas fiz o que fiz pelas crianças, eu não teria a coragem de abandoná-lo naquele estado, se fôssemos só nós dois. Perco as contas dos móveis espatifados no chão, das dezenas de lavagens do banheiro por semana, para tirar a catinga de vômito, as roupas cagadas. Enrouquecia de tanto chorar, eu não ouvia mais música, não comprava mais vestidos nem broches para enfeitá-los, Fortunato falecia aos poucos e era à minha volta que o caixão se fechava. Suas palavras, antes tão doces e excitantes, tornaram-se infrutíferas, não havia sabor, apenas uma azia cíclica, da cachaça pra ele, dele pra mim. Cheguei ao ponto de tapeá-lo. Ele para mim nunca levantou um dedo, estivesse sóbrio ou embriagado, e me envergonho pela agressão, minha cabeça fazia manobras e as ideias escapuliam sempre que eu passava as mãos nos cabelos. Perdi a compostura, ao vê-lo agarrado com uma putinha de dezenove anos, quase em frente de casa, dançando com a mão dentro de sua saia, doem-me os nervos só de lembrar. Dei nele e nela, empurrei-a rua afora e o pus pra dentro, embaixo do chuveiro. Foi o ápice, como dizem, ali o divórcio me pareceu tão óbvio e necessário que tive nojo de mim pela burrice, ou cegueira, ou esse capuz invisível que cobre os sentidos dos apaixonados. No outro dia de manhã já estava na casa da minha mãe com Alfonso e Amélia sob as asas, alojamo-nos no meu antigo quarto, e eu me senti num lar como nunca. Fortunato ligou todos os dias durante um mês, quis ver os filhos, mas meu desgosto era tanto que me passei de juíza e o proibi de visitá-los. E quanto mais eu via sua silhueta se desfazer ao dar meia volta do casarão de minha mãe, mais aquele aperto do peito das viúvas me assolava, fazendo-me sonhar com a ressurreição do marido morto. Pois aquele do qual eu sentia falta não sobrevivera aos dias tempestuosos, encontrava-se enterrado e em ossos, vivo apenas nas pueris lembranças de quando o convívio cheirava a leite condensado e pipoca. Tranquei-me em mausoléu e assim respirei por mais algumas semanas umbrosas, longe de Fortunato e do mundo exterior. Graças a uma pneumonia de Amélia presenteei com novos ares meus pulmões, ficamos no hospital por dois dias, o corpo aos poucos recuperou o peso, cimentei forças e até hoje continuo, sem arrependimentos nem saudade de nada. Só em algumas noites mais demoradas um frio súbito sussurra à nuca e a presença de Fortunato me parece materializada junto a mim. Então durmo.
domingo, 13 de junho de 2010
chapter.
Esperei do lado de fora, sentado numa espaçosa cadeira rubra, em frente à recepcionista do gabinete do Senador. Era de madeixas democráticas, partes louras oxigenadas, outras de um negro natural charmosíssimo. Nas pálpebras, uma tintura violeta, clara e humilde, como quem finge não chamar atenção, que combinava perfeitamente com duas rosas postiças decoradas na sua mesa em L. Atendia aos telefonemas com delicadeza cinematográfica, declamando bom dia como um sopro, em suspensão, meus olhos salivavam ao som daquela melodia fulminante. Serenamente atordoado, lutei contra a impulsão que pulsava dos calcanhares ao crânio, aquela vontade quase assassina de olhar sem intermitências o decote desafiador. Poder repousar minha carne naquela pele de veludo, qualquer pedaço que fosse, e meus testículos exumariam paz. Apanhei a agenda da bolsa, subitamente, e comecei a escrever sem controle, como um psicógrafo. Não faço a menor suspeita do conteúdo do texto por, em seguida, desmatar a folha e transformá-la em bola, arremessada no cesto de lixo mais próximo. Trêmulo como uma bandeira ao alto, redirecionei a vista à miragem divina, me encarava por cima do monitor, dois faróis de xenon incandescentes, permaneci estátua, aceita uma água, café, eu não tinha respostas, alguém por mim disse sim à primeira opção, e ela levantou-se, sincronizada com meu pênis. Dobrei as pernas, ela curvada enchendo o copo, a cueca me sufocando, obrigado, ela abriu um sorriso acanhado e vadio, enquanto de um só gole esvaziei o vidro cilíndrico. Perguntei onde era o banheiro, querendo chamá-la comigo, no final do corredor, que percorri me equilibrando nas paredes. Fechei a porta de chave, sentei vestido no vaso e respirei. De olhos fechados, fundo. Confesso que a ideia de masturbação me visitou, mas como um absurdo, eu estava em horário de trabalho e, se fosse para gastá-lo com algo do tipo, que fosse dentro da recepcionista. Enxaguei a cara, ainda podre. Ao retornar à sala, o Senador havia saído, estava ao lado da porta principal me aguardando para o início da viagem. Vamos, quem é coxo parte cedo, e girou a maçaneta, ela acenava, não para mim, mas fui recíproco ao meu desejo. Ela então pôs o olhar em mim e mostrou a dentição, até logo, eu repeti, teria que rever aquela mulher, marcar um jantar, fodê-la num motel além das minhas despesas, valeria a pena. Vinho, bobó de camarão e sua boceta morna a me abrir o apetite. Viajei imaginando a volta, uma orca encalhada na cabeça, tanto peso que adormeci. Na loteria dos sonhos, acertei meus pais no aeroporto, vibrávamos o alcance de algum objetivo jamais esclarecido durante a quimera. Papai gargalhava fumaças e tosses, de óculos escuros e com o terno branco que sempre apreciei, enquanto mamãe gesticulava como um professor, relatando histórias da minha infância de modelo. Eu ria como menino, sem precaução no volume, e eles não me censuravam, apesar dos olhares reprovadores em volta. De repente uma voz remota brotou no ar, vocês precisarão pegar um atalho, a estrada foi interditada há pouco, era um policial rodoviário. Acordei babando, o motorista do Senador já entrara no caminho de barro. Aproveitou para uma pausa. Mijar.
Assinar:
Postagens (Atom)