teimas quilometrar o amor
enquanto o tango dos dias
adverte-nos em chiados
o manto da liberdade rasgando-se linha a linha
e meus olhos de cerâmica, dois pedintes, zelam secretamente
todos os nodosos traçados
por quais caminharemos até os ossos
não há vagas aos sorrisos infinitos
esculpiremos cada dia nossa auto-imagem
para nos lembrar do fandango longíquo
como a calma vivida em Ponte de Sor
onde a fuligem urbana esbarra numa espécie de escudo invisível.
teus lábios xilogravados em meu tronco
como fosse hoje,
recordo,
numa tela de gesso
embaixo da velha nogueira
que presenciou, tantas vezes, nossa agitação hormonal
em harmonia
com Deus
com os demais
com o mundo habitado por zumbis
a memória lateja
um aeroporto de saudades alojado em mim.
ponho o vinil riscado
e ele canta tua presença pela casa
amanhã nos reencontraremos
decoro frases a serem ditas
ao pé do ouvido
e temo você não gostar
e temo por mim duvidar
se é realmente isso que nos fará conviver melhor
sem tanto vermelho no rosto
como a inércia da velhice.
são quatro e quinze da manhã
e o travesseiro frio não adormece
junto ao meus olhos vidrados na janela
de onde a cidade parece estática
exceto o oceano.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
a passagem
A cada passo da minha patrulha solitária, relia os ensinamentos apreendidos durante a permanência em Recife, onde o sol enegreceu a vista tantas vezes e pela última. Uma rua em aclive me avista e temo olhar através da nuca, mas algo além de mim fez-me virar; percebo não mais estar na capital pernambucana, estou acima, diante das nuvens que um dia, dois, me prenderam em casa. Retorno a cabeça à rua e ela me fita, flutuante, como um escorrego ao revés, e nada, nem mesmo a película, me faria hesitar por um instante, dois. Sinto um ar salubre em meus pés. Um protótipo de sorriso move minhas faces ensopadas, mas o receio bravateia em meu estômago, ou no lugar onde antigamente ele permanecia. O avião aterrissa. Sentimento de nostalgia invade-me o espírito e, instantaneamente, o cultivo de uma vida inteira floresce perante meus olhos. Amigos de seis meses, amores infinitos, lares cruciformes, o pouco dinheiro arrecadado, as veias abertas, a escassez de paz; tudo à tona. Minha estadia terrestre, o expresso dos meus dias como flashbacks de um filme mal-escrito, porém coerente. Vejo uma fatia de meu pai, correspondente ao tempo unido em casa. Enxergo a universidade, seus jardins, meus professores, livros. Uma cena de La Lengua de Las Mariposas, trechos das músicas que tanto aliviaram o enjoo. Meus vinte e um anos em minutos, um curta-metragem.
Última lembrança, a sombra de uma faca. E ainda a sinto penetrando meu dorso, como uma angústia repentina. Sem dúvidas Orlando, cuja vida destruí três vezes sem notar movimento algum. É raro tatear a realidade nas coisas. Quanto mais me apeguei às feições, menos pulsei vida, como se a carne levasse ao árduo caminho do arrependimento. Queria pedi-lo, ainda pela boca, sinceras e infinitas desculpas, mas não há mais corpo errante, resta-me apenas essa imagem de mim mesmo, o resto do que eu um dia fui. Mesmo livre da carcaça, dói-me algo, superior à existência passada, como se uma dor futura fosse pressentida. De longe, braços em forma de galhos perambulam agonizantes; eu não estou só. O som se torna cada vez mais claro, gritos.
A Terra é um exercício.
Última lembrança, a sombra de uma faca. E ainda a sinto penetrando meu dorso, como uma angústia repentina. Sem dúvidas Orlando, cuja vida destruí três vezes sem notar movimento algum. É raro tatear a realidade nas coisas. Quanto mais me apeguei às feições, menos pulsei vida, como se a carne levasse ao árduo caminho do arrependimento. Queria pedi-lo, ainda pela boca, sinceras e infinitas desculpas, mas não há mais corpo errante, resta-me apenas essa imagem de mim mesmo, o resto do que eu um dia fui. Mesmo livre da carcaça, dói-me algo, superior à existência passada, como se uma dor futura fosse pressentida. De longe, braços em forma de galhos perambulam agonizantes; eu não estou só. O som se torna cada vez mais claro, gritos.
A Terra é um exercício.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
a long song
son house mantinha a voz
a vitrola iluminada de azul
"you know, love, love is a worried old heart disease"
incontestável
estiquei-me ao violão debruçado na parede cinzenta
um homem nasce da madeira
e canta como um pássaro no descanso de sua árvore
os dedos não mais são meus, são do homem
e o assisto com arrepios na nuca
desfilando no vendaval de acordes
os pés descalços, em pedais invisíveis,
atraem a atenção das formigas
visão privilegiada
tentei me abaixar, mas estava imóvel
só via
o homem golpeando as cordas com um afeto agressivo
enquanto as suas trepidavam no interior
calara-se a vitrola
assistia comigo o quadro em criação
e por mais alguns minutos a vida encontrou-se em resumo
surdo de melodias que valem um movimento de translação, sinto saudades do homem
do instrumento-ser cuja sonoridade me fez bater asas aos anos 60
um nevoeiro desagasalha a rua há dias
falta-me ânimo, sobra falta
para onde voara o artista?
talvez embasbacasse jovens celibatárias que vão em busca de corpo nos bares da lua
quem sabe não toca para uma platéia planetária
aqui é que não está, o artista
foi-se junto aos meus anos
deixou-me rugas e um bisturi dentro do peito
esquecido
um sumiço sutil e brutal
como há de ser a morte da alegria
entre os dias
quase sem perceber.
pela manhã pensei tê-lo reencontrado, quando abracei Marieta debaixo da adequada chuva
e senti seu busto febril me esquentar dos pés à cabeça
pela manhã.
a vitrola iluminada de azul
"you know, love, love is a worried old heart disease"
incontestável
estiquei-me ao violão debruçado na parede cinzenta
um homem nasce da madeira
e canta como um pássaro no descanso de sua árvore
os dedos não mais são meus, são do homem
e o assisto com arrepios na nuca
desfilando no vendaval de acordes
os pés descalços, em pedais invisíveis,
atraem a atenção das formigas
visão privilegiada
tentei me abaixar, mas estava imóvel
só via
o homem golpeando as cordas com um afeto agressivo
enquanto as suas trepidavam no interior
calara-se a vitrola
assistia comigo o quadro em criação
e por mais alguns minutos a vida encontrou-se em resumo
surdo de melodias que valem um movimento de translação, sinto saudades do homem
do instrumento-ser cuja sonoridade me fez bater asas aos anos 60
um nevoeiro desagasalha a rua há dias
falta-me ânimo, sobra falta
para onde voara o artista?
talvez embasbacasse jovens celibatárias que vão em busca de corpo nos bares da lua
quem sabe não toca para uma platéia planetária
aqui é que não está, o artista
foi-se junto aos meus anos
deixou-me rugas e um bisturi dentro do peito
esquecido
um sumiço sutil e brutal
como há de ser a morte da alegria
entre os dias
quase sem perceber.
pela manhã pensei tê-lo reencontrado, quando abracei Marieta debaixo da adequada chuva
e senti seu busto febril me esquentar dos pés à cabeça
pela manhã.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
à/a tarde
Distraí as crianças enquanto Neuza retirava de cima da mesa os pratos quase limpos. A comida realmente havia sido mínima, mas a fome arrasadora dos pequenos contribuiu com mais ímpeto à exterminação de qualquer indício dos grãos de arroz e feijão ali previamente postados. Até as moscas pareceram ter sido ingeridas, elas que sempre buscavam em nossos restos a nutrição necessária para durar um dia mais ou dois. Nenhum zumbido ouvia-se, só o de Neuza, um assobio melancólico cuja fraqueza intraduzível me fez querer tapar os ouvidos. Os gritos das crianças fizeram o papel dos meus dedos, quase cochilei com Luca pulando no meu colo, a tarde teimava em não anoitecer e aquela claridade insólita impossibilitava-me de mergulhar na liberdade do sono. Levantei do sofá, um oceano de formigas alastrando-se em minha perna, manquei ao quintal e vi Boris, dormindo tão tranqüilamente que desejei deitar-me ao seu lado, ali mesmo, na areia mijada, e dividindo a suavidade de um sonho canino, transformar-me, por que não, em um labrador, como ele. Eu latiria o dia inteiro.
Não quis perturbá-lo; um animal respeita o espaço do outro. Pensei na minha cama, desforrada como sempre, e senti uma náusea que me dificultou a respiração. Os pulmões pareciam encharcados de frituras, deixei as pálpebras despencarem e contei até dez. E mais dez. Há sete dias estava sóbrio, mais ébrio que nunca, e salivei à imagem de uma vodca qualquer que a mente me trouxera subitamente. Minha dívida no Bar do Fred era vergonhosa e eu não conhecia boteco algum onde se permitia fiado. Ainda mais para um estranho com minha aparência, se é que ainda a tenho. Entrei no banheiro e, sentado no vaso, ouvi Luca ou Léo, não consegui diferenciar. Berrava aos prantos por motivos que eu preferi nem imaginar. Neuza sobrepôs a voz e um silêncio pós-batalha instalou-se na casa. Não sei o que era mais angustiante: a mudez sofrida ou o barulho intermitente de uma felicidade enganosa. Lavei o rosto no intuito de arrancar os olhos, os sentidos, a consciência que um dia me metamorfoseou a este nível. A água limpa, mas não cura. Mantenho-me em pé, ou o chão me mantém, e tento amiudar a dor que vaza do olhar em forma de rio. Recordo dos tempos lúdicos em Niterói, onde a vida era um deslize e Neuza me jurou fidelidade eterna.
Cá estamos nós.
Não quis perturbá-lo; um animal respeita o espaço do outro. Pensei na minha cama, desforrada como sempre, e senti uma náusea que me dificultou a respiração. Os pulmões pareciam encharcados de frituras, deixei as pálpebras despencarem e contei até dez. E mais dez. Há sete dias estava sóbrio, mais ébrio que nunca, e salivei à imagem de uma vodca qualquer que a mente me trouxera subitamente. Minha dívida no Bar do Fred era vergonhosa e eu não conhecia boteco algum onde se permitia fiado. Ainda mais para um estranho com minha aparência, se é que ainda a tenho. Entrei no banheiro e, sentado no vaso, ouvi Luca ou Léo, não consegui diferenciar. Berrava aos prantos por motivos que eu preferi nem imaginar. Neuza sobrepôs a voz e um silêncio pós-batalha instalou-se na casa. Não sei o que era mais angustiante: a mudez sofrida ou o barulho intermitente de uma felicidade enganosa. Lavei o rosto no intuito de arrancar os olhos, os sentidos, a consciência que um dia me metamorfoseou a este nível. A água limpa, mas não cura. Mantenho-me em pé, ou o chão me mantém, e tento amiudar a dor que vaza do olhar em forma de rio. Recordo dos tempos lúdicos em Niterói, onde a vida era um deslize e Neuza me jurou fidelidade eterna.
Cá estamos nós.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
tolos
oscilantes corações
intérpretes de uma vida seriada
buscam hoje paz
capaz de desarmar a bomba
existente em cada mente humana.
aprendi a apreender lágrimas.
os últimas dias,
tortuosos como a vida há de ser,
me fizeram chorar as dores dos grãos de areia do fundo do mar
o abdômen retorcido
a angústia como um feto
já chorando pela liberdade ainda distante
até o lento aborto
nossos sorrisos novamente em sintonia.
rezei toda a minha fé
ninguém teme tanto o fim desse amor quanto eu
talvez só ela
cuja paixão continua latente como novo-amor
e vibra
tímpanos, pescoços molhados
por que nada é perfeito?
e se a ideia de perfeição inexiste
por que a buscamos, assim, utopicamete?
o sofrimento é a perfeição terrestre
da lama faz-se o rio
límpido e fluente, lembrança da infância
e dói me constatar que
nenhuma criança rói unha
nenhuma
nenhuma enxaqueca é mais que mero cansaço físico
nenhuma
há fases na vida que vida é o que menos há
ao tornamo-nos adultos, parecemos regridir ao ventre materno
inseguro, no entanto
sem cordão umbilical
nos perdemos em avenidas sinalizadas
e algo, alguém, não entendo bem, alguma coisa parece torcer por nossas quedas
algum desejo vingativo, dívidas passadas
não entendo bem
apenas sei
derrubam-nos diariamente sem que percebamos
vidrados na matéria, esquecemos a essência
invisível
a catástrofe existencial não terá fim
humano algum encontrará felicidade plena enquanto seus desejos resumirem-se aos materiais
buscamos resposta no outro, quando o outro também é inundado de indagações
então divorciamos, discutimos
a família, brevemente, habitará os museus
livros de história
ossificados
what will be proved?
ain't no life
never had.
intérpretes de uma vida seriada
buscam hoje paz
capaz de desarmar a bomba
existente em cada mente humana.
aprendi a apreender lágrimas.
os últimas dias,
tortuosos como a vida há de ser,
me fizeram chorar as dores dos grãos de areia do fundo do mar
o abdômen retorcido
a angústia como um feto
já chorando pela liberdade ainda distante
até o lento aborto
nossos sorrisos novamente em sintonia.
rezei toda a minha fé
ninguém teme tanto o fim desse amor quanto eu
talvez só ela
cuja paixão continua latente como novo-amor
e vibra
tímpanos, pescoços molhados
por que nada é perfeito?
e se a ideia de perfeição inexiste
por que a buscamos, assim, utopicamete?
o sofrimento é a perfeição terrestre
da lama faz-se o rio
límpido e fluente, lembrança da infância
e dói me constatar que
nenhuma criança rói unha
nenhuma
nenhuma enxaqueca é mais que mero cansaço físico
nenhuma
há fases na vida que vida é o que menos há
ao tornamo-nos adultos, parecemos regridir ao ventre materno
inseguro, no entanto
sem cordão umbilical
nos perdemos em avenidas sinalizadas
e algo, alguém, não entendo bem, alguma coisa parece torcer por nossas quedas
algum desejo vingativo, dívidas passadas
não entendo bem
apenas sei
derrubam-nos diariamente sem que percebamos
vidrados na matéria, esquecemos a essência
invisível
a catástrofe existencial não terá fim
humano algum encontrará felicidade plena enquanto seus desejos resumirem-se aos materiais
buscamos resposta no outro, quando o outro também é inundado de indagações
então divorciamos, discutimos
a família, brevemente, habitará os museus
livros de história
ossificados
what will be proved?
ain't no life
never had.
domingo, 25 de outubro de 2009
hole
Desde cedo quis ser Agricultor. Achava maravilhoso o poder cultivar, fazer crescer do chão, verde e colorido, as vidas responsáveis por nossas vidas. Tanto sonhou em alimentar os filhos (queria três) com o produto do próprio esforço, manter uma situação economicamente estável no lado ainda claro do estado. Uma efeverscência admirável, a que transpirava dos poros de Roman, quando jovem, na antiga Barena. Logo devastada pela perda de dois alicerces vitais: o irmão mais velho Robert, exímio químico, cuja estrada teve término antes do terminal San Pietro, na curva Maranata; e a metalúrgica da família, fechada pelos impostos não pagos pelo pai, talvez. Nunca ficou muito claro, mas o que importava? Nada mais. A família, agora uma clausura sem o irmão e a renda, declinava na ladeira da angústia e Roman sentia todas as escoriações, mais as dos parentes que as próprias. Havia visto uma única vez a mãe chorar, no enterro de Kiko, o cachorro. Os sorrisos autenticavam a família como imbatível, problema algum era capaz de rachar tais elos de sangue, carne e terra. As lágrimas maternais tornar-se-iam rotineiras, o pai, já não mais tão forte, trancou-se num silêncio mais barulhento que os berros diários da mãe. Só se via o pai com a calculadora, e o dinheiro guardado que se esvaía e não retornava. Seria factível o reerguimento familiar? Roman não mais sonhava com hortas, lavouras. Desejava, mais que tudo, reflorescer a felicidade na família, ajudar o pai nos trabalhos, acarinhar a mãe enquanto o almoço fosse preparado. Mas não os deram trabalho. Ao pai por não ser tão jovem, a Roman por ser jovem demais. A fome acenava da varanda ao desespero já instalado em todos centímetros da casa. Roman perlustrou por toda a cidade em busca de emprego digno e recompensador; nada. O vazio no estômago esmagava a mente pútrida, quando decidiu mandar a dignidade ao inferno. Foi preso na terceira vez, ao pôr alimentos na bolsa, num supermercado, sem autorização prévia ou pagamento à vista. Numa jaula minúscula, com mais seis répteis, pensou em suicidar-se para reencontrar Robert, quem sabe estivesse bem, alimentado e rico. Desistiu, não havia forças.
Em casa, dois corpos boiavam à beira do abismo.
Em casa, dois corpos boiavam à beira do abismo.
domingo, 18 de outubro de 2009
ao medo de perder (-te).
o fim da madrugada trouxe
ao lado do sol azedo
mal-estar
espanto-me com a fragilidade que me transformei
vidro rachado
ao me entregar à tua existência
como se fosse a minha
não mais sou único
meu espírito abriu mão de uma parte (grande parte)
para encaixar o teu e unir
nossos laços carnais em além
o amor que transgride o táctil
atrofiado sem tua respiração por perto
apelei ao sono tranquilidade
que não veio
mas, sim, distância latejando os sentidos
não consigo afirmar em que cômodo da casa estava
quando te liguei para retornar a mim
a lucidez tecendo meus pelos
eu voltaria ao normal
se não fosse a irritação
o tremor na tua voz
eu mais que ouvi, vi
a dolorosa reação do outro lado da cidade
perfurando-me o peito de mágoa
outra vez mais perdido
outra vez menos sereno
suplicando ao Pai, ou aos Tios e Avôs
que o ferimento seja superficial
precisamos sentir o vento puro em meio ao ar enegrecido.
as pequenas fúrias geram o furacão
a que todos temem adentrar
aquele que arranca Maria de João
sem vestígio, só cicatriz perpétua
cuja fisgada anestesia alguma ameniza.
ao lado do sol azedo
mal-estar
espanto-me com a fragilidade que me transformei
vidro rachado
ao me entregar à tua existência
como se fosse a minha
não mais sou único
meu espírito abriu mão de uma parte (grande parte)
para encaixar o teu e unir
nossos laços carnais em além
o amor que transgride o táctil
atrofiado sem tua respiração por perto
apelei ao sono tranquilidade
que não veio
mas, sim, distância latejando os sentidos
não consigo afirmar em que cômodo da casa estava
quando te liguei para retornar a mim
a lucidez tecendo meus pelos
eu voltaria ao normal
se não fosse a irritação
o tremor na tua voz
eu mais que ouvi, vi
a dolorosa reação do outro lado da cidade
perfurando-me o peito de mágoa
outra vez mais perdido
outra vez menos sereno
suplicando ao Pai, ou aos Tios e Avôs
que o ferimento seja superficial
precisamos sentir o vento puro em meio ao ar enegrecido.
as pequenas fúrias geram o furacão
a que todos temem adentrar
aquele que arranca Maria de João
sem vestígio, só cicatriz perpétua
cuja fisgada anestesia alguma ameniza.
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