quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

aequilibrĭum.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Esvaziados os corpos, deitados sob a escuridão de uma lâmpada apagada num pequeno quarto. Que diferença faz uma lâmpada. O suor escorria nas costas. Eu pendia a perna esquerda de lado, o abafado me maltratava, por que ainda precisamos quase morrer para amar, pensei de olhos abertos, sem nada ver. Silêncio, completo silêncio, pois não se podia fazer barulho. Nunca se pode fazer barulho. O perigo em chamar atenção. Todos nós, com uma mão atravessada na garganta. Quieto. E os carinhos recomeçavam.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Manuais, dicas de felicidade eterna ou prolongada, táticas para prolongar o prazer, cinco coisas comprobatórias de que você é bom de cama, faça um teste rápido. Quem goza, ama. O gozo é o meu pastor e nada me faltará. Sempre falta. Onde há vida, há inacabamento, escreveu um barbudo educador no século passado. Somos seres inacabados. Incompletos, buscamos incessantemente preencher vazios existenciais com trouxinhas de pequenas alegrias. Minúsculos potes de tranquilidade passageira. Não é o suficiente.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Porque a fome sempre foi inerente à espécie. Fome de tudo. Mas me pergunto, enquanto vejo dois jovens dividirem um saco de batatas fritas no metrô, se não nos tornamos escravos de tantas necessidades. Parece-me que uma goiaba nos bastaria, às vezes, mas optamos por pedir um prato de inhame com charque. Entupir-nos de tudo e todos, até sentirmos essa humana sensação de se estar cheio. E se eu vomitar? Exagero meu. Prometo não me alongar, só vem mais um parágrafo em frente e nem vou escrever o que acho sobre a anestesia dos vícios.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Um dia publicarei também um livro de auto-ajuda para vender nas prateleiras ou ser compartilhado nas redes sociais. Farei frases de efeito para serem carimbadas em belas imagens de casais e campos verdíssimos, é mais fácil ler imagens. Entre as frases, direi que amor é equilíbrio. Resumir-se às necessidades do corpo é perder a chance de sentir o imenso prazer de tarefas banais, como caminhar juntos por longos minutos ou permanecer em silêncio, do alto, contemplando a cidade. Compromisso não deve estar no vocabulário dos amantes: relacionar-se é, antes e acima de tudo, uma escolha. Dizer não é necessário e renova a individualidade de cada um. E eu direi também, nas frases de efeito para serem compartilhadas, que diariamente nós precisamos catar o egoísmo e orgulho, como carrapatos, para evitar que sangremos sem perceber.

Um comentário:

Areli Quirino disse...

O texto me remeteu a diversas sensações diferentes durante a leitura. Tu é foda. Eu te amo. <3