sexta-feira, 22 de setembro de 2017

insidewar.

go away
dizziness thoughts
fear, this invisible dinosaur
I feel like it's not me
I feel as if control
no longer belong to my feet and hands
what's the error of perishing?
in wanting to scream until the mind is adjusted?
go away
I don't want to romanticize
ache
this poetry means nothing
in my rebellious sea
little monsters
painted in fresh ink
all over my skin
nothing, my suffering is nothing
compared to the anguish of my contemporaries
I will improve
I will resurrect the conscience
return to the path of calm
and walk like one who flies.

turn anger
in bouquets of smiles
find out love
beyond despair and detachment
hear the music
of a clear night
there is no darkness
if we open our eyes.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

baque e reboque.


pequeno caos nas ondas da noite
meu mapa do tempo embaralhado
perdidos cacos de mente
do cão que fui e me tornei
ouvistes meus uivos
o dilacerar do abdômen
a fera a morrer de medo
da selva, sua mãe.

carne cortada
consciência tomada
pelos monstros, meus filhos
se vi luz, era em ti
afastavas sombras
com o busto calmo
respiração de mar morno
enquanto fui só agitação
visitei o monte das pedras movediças
e morri só de pensar
em jamais sair.

saí, enfaixado
deitado na maca, mesmo em pé
atropelado pelo caminhão
e te agradeço, pelo caminho
mostrado e trilhado junto
por tentar entender o que
até pra mim é incompreensível.

deito-me, cansado
grato à Vida e seus grãos
de sabedoria,
ensinados,
mesmo em dor
sempre amparado
deito-me, amado
grato ao Sonho,
o meu amor
realizado.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

de mim

às vezes é bom
ouvir o lago numa tarde sem vento
sem medo olhar o espelho
sem medo sentir a noite
banhar o corpo nu
sinto falta da solidão
de quando compartilhávamos apenas
natureza e um riscado de céu
o cheiro da luz
que vinha do gás
sonhos sobre tantos
modos de dizer não
pedimos por voz
gritamos por vez
hoje ninguém se escuta
estas minhas sílabas
virarão caracteres
e se perderão como folhas
de um bosque chuvoso.

quanto tempo, na última semana
permiti à minha essência
criar?
obrigações têm me roubado
as horas, moderno jeito de
sobreviver a trancos e barrancos
ontem um barraco pegou fogo
madeira que era tronco
raízes despedaçadas
suicídios nos jornais, diários
nada conforta
e mesmo assim acatamos
escrituras sagradas mortais.

universo
universo
meus versos nada têm
mas te oferto
para um dia, deitado
no infinito dos
teus braços
não mais
eu temer
o deserto.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

retornar (mas a vida é maior que o foguete caído)

quando volto sinto
a loucura
essas vozes banhadas
de nada
vazio, estranha estrada
que leva a uma rua
onde ninguém cresce
sento ao lado dos inimigos
um dia desejaram minha morte
hoje engolem minha presença
quantas balas atiram sorrisos falsos
todos os dias subo e desço
a mesma escada
todas as horas sinto fome
sede de viver longe daqui
cansado dos mesmos homens
cansado das mesmas barbas
o repetido bater dos teclados
dos operários loucos por números
refugio-me e respiro meu ar
meus motivos para levantar
preciso fortalecer meus músculos
e construir minha casa.

garoa lenta escorre sobre a cidade
a tarde caminha nas calçadas
estudo o silêncio e o desejo
dentro de mim
querer, ansiar
morder o lábio
apertar os dedos
te amar, rasgada
costurar o beijo
lugar nenhum do mundo
ser tão lindo como a calma
que transpira cor de rosa
das faces apaixonadas
a onda que nunca
conseguimos domar.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

post

deixo minhas botas marcadas
pelos pneus do asfalto
no canteiro da porta de casa
amacio os calos
desatarraxo os botões da camisa
na vila passam vendedores
e sabiás em busca de sombras
repousarão, um dia
no coração dos homens
quando soubermos cultivar
galhos sem nos ferir
ouço o pipilar dos veículos de carga
se fechar os olhos posso vê-los
deslizar sobre as imperfeições da BR
vivos, levando ao interior
pedaços da cidade
enquanto desacelero, pé no freio
e leio as sutilezas do dia
as fotos na carteira
bilhetes que não jogo fora
objetos que explicam o mundo
da minha vida
meu museu serão minhas palavras
e você a principal peça
exposta em cada texto
cada miúdo pensamento transcrito
anoto-os para deixá-los eternos
pois um dia, descalço do corpo
minha mão
não mais
escre-
ve-
rá.

cume invertido.

 
Os conflitos espirituais se encarnam e recobram o abrigo miserável e magnífico do coração humano. Ninguém está resolvido. Mas todos estão transfigurados. 

O Mito de Sísifo, Albert Camus



atrás da porta
há sempre um lobo
pernas cruzadas, olhar amigo
manipulando seu maxilar
enquanto mastiga, mastiga, mastiga
às vezes me surpreende
em cima dos móveis
escalando paredes
no trabalho
nos telhados avermelhados
dos antigos prédios
já o vi em Recife
na noite de Kadikoy
seu nome é conhecido
pode ser lido nos livros
não nestes versos

além da cabeça
há sempre um lodo
negrume escorregadio, cheiro forte
passeio e me lambuzo
perene, de costas para o sol
quantos homens já não caíram
quantos ainda irão adiar a luz
somos ineptos
ou conscientes do nosso mal?
versos, palavras, são navalhas
só compreende quem se corta
e mete o dedo na busca
de encontrar entre as vísceras
nossa verdadeira face
nossa alma de carne e osso.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

deixem meus loucos em paz

fora, fora daqui palavras enlatadas, esquecidas, tapadas com a mão que agora abre os dedos para deixar escorrer um salvamento. na escrita se pode tudo. a partir de uma única língua, formar quarteirões de frases conexas ou não, sentido há no peito de quem sente. posso sobrepor sílabas, palavras que queira ajuntar no ralo um porão escuro vigiei desde sempre, ainda menino afeiçoado a perguntas sobre o sofrer nas notas do choro do cão beethoven. criação arte gramática bolas de tênis de um lado para o outro, filhos de pais separados, um texto que nasce para o autor romper, perpetuar a eterna desconstrução de refazer-se, e refazer-se, e desfazer. 

enviar um feedback, ser solícito a filhos da puta, olhar no espelho e, sim, compreender-se um dos filhos da puta que choramingam migalhas, pequenos pombos inventores de máquinas e bíblias sangradas. o santo vinho, o deus-álcool, religiões abastadas no vício dos lares, "afaste-se de mim pessimista infernal!, pois o senhor é meu pastor e eu sou uma ovelha morta de medo do mundo", me dê aqui meus medicamentos fitoterápicos, conexão com a natureza que adoramos decepar. 

Olhou em volta, a praça havia se tornado uma espécie de palco para seu monólogo alucinado. Garotas riam de dentro de seus uniformes da escola, uma mais sensível se excitava, velhas comerciantes depositaram suas mercadorias no chão de areia e observavam Fagundo com inusitada compaixão. Havia homens da lei, noiados, imigrantes secos de distância, uma verdadeira plateia aos pés do poeta arrebatado, do filósofo sem dentes: só voz, garganta seca e uma alma estuprada. 

Fagundo envergonhou-se pois tinha urinado de prazer, tanto prazer em falar. Tapou o ventre com a mochila rasgada e caminhou para fora, fora daqui. Desenlatou-se da praça, esquecido, com as mãos a se cobrir, nada mais escorria, nada mais queria escrever. Debaixo da marquise, procurou uma pedra. Não lembra como conseguiu acendê-la.