Estreando na direção (de um longa), o ator Selton Mello faz de uma celebração natalina um primoroso estudo de personagens amargurados e aprisionados ao passado, contrapondo a suposta (e, talvez, imposta) alegria da data aos traumas e dores de uma família extremamente desestruturada. Com grandiosa sensibilidade, Mello alcança êxito em seu primeiro longa-metragem e se mostra um cineasta autoral e promissor.O filme acompanha Caio (Leonardo Medeiros), um homem que busca, no natal, reconciliar-se com a família. Logo na abertura da produção Selton acerta ao retratar a profissão de seu personagem (narrativamente perfeita, a escolha de um ferro-velho como local de trabalho de Caio) com closes nos carros degradados, ferrugens e sujeira. Então Caio viaja à cidade grande com a esperança de reatar os laços afetivos com sua família. Ressalva para a tomada em que o cineasta mostra a estrada de dentro do ônibus, aparecendo simultâneamente um crucifixo no painel do transporte, o que simboliza a fé e/ou a esperança do personagem em relação àquela jornada.
Na festa, percebemos o distanciamento de Caio com os membros da família; alguns mais repressivos - como o pai (Lúcio Mauro) - e outros, porém, receptivos - caso da mãe (Darlene Glória) e do seu sobrinho Pedro (Fabrício Reis - valeu Laís por achar o nome pra mim) . O motivo desse mal-estar é, até então, implícito. O cineasta põe em cheque os valores de uma sociedade em que a compaixão e a solidariedade para com o próximo se fazem presentes apenas em datas comemorativas; tendo como seu maior exemplo o natal. Reparem como o cineasta expõe a contradição da data quando Fabiana (Graziella Moretto) - cunhada de Caio - distribui os presentes com uma alegria questionável e, ao mesmo tempo, Caio e seu irmão Theo discutem na escada da casa (e o segundo fato é, com certeza, o reflexo da realidade daquela família). E é como se ouvíssemos da boca do próprio diretor as palavras proferidas por Mércia ao questionar a celebração, chamando os convidados de aproveitadores, sanguessugas e vampiros (cena esta que tem um belo desfecho quando a câmera enfoca os cabelos brancos de Mércia desmaiada no banheiro, ressaltando a inflexibilidade do tempo).
A direção de arte - elaborada por Renata Pinheiro - representa fielmente a situação decadente em que se encontram os habitantes daquele "lar". Notem que os espelhos da casa são manchados, portas enferrujadas, paredes mofadas, a piscina suja, com folhas ao redor; não é assim tão longíqua a relação entre a casa da família com o ferro-velho em que Caio trabalha (e o estado da casa dos amigos de Caio também é deplorável). A fotografia, quase sempre escura e pesada, ilustra o sombrio estado emocional dos personagens. Detalhe para a belíssima tomada em que, após conversa com o irmão, Theo caminha e deixa a casa dos amigos. A câmera desfocada faz com que a silhueta de Theo lembre a de um alienígena, o que intensifica a idéia do distanciamento da relação entre os dois parentes.
O fato que mais me impressiona na produção, contudo, é como o roteiro utiliza-se de um instrumento fundamental - carro(s) - como guia para a melhor compreensão do espectador sobre o principal acontecimento envolvendo Caio. São diversas cenas em que carros estão ativamente presentes na narrativa: as crianças ganham carros de brinquedos na festa de natal; Caio hesita ao observar a velocidade de um veículo na rua; Caio observa um carro sendo consertado enquanto está na padaria e bruscamente deixa o estabelecimento; a inocente brincadeira de seu sobrinho ao dizer "verde...vermelho!", trocando as funções das cores no semáforo e, claro, o desfecho do filme, onde o carrinho de brinquedo pode ser observado na cômoda do quarto, ao lado dos remédios (Outro forte instrumento narrativo adotado por Selton. Observe como, na conversa com a mãe, Caio dá ênfase à importância de "tomar os remédios na dosagem certa", o que pode ser interligado ao final do filme). Outra maneira que o diretor usa para explicar os fatos é utilizar as aparições e visões tidas por Caio. Jamais tornando-as irreais ou exageradas, o estreante diretor acerta nestas aparições, desprezando os muitas vezes indevidos flashbacks.
Extraindo soberbas atuações de seu elenco (destaque especial para Leonardo Medeiros e Darlene Glória), Selton Mello cria uma esplêndida obra que analisa as relações humanas de forma sensível e verdadeira. O melhor filme nacional do ano, sem dúvida. Aguardo ansiosamente o próximo projeto deste que é um dos grandes atores de sua geração e, agora, um dos mais talentosos e promissores cineastas do país.