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segunda-feira, 16 de março de 2009

Anti-Herói Americano

A metalinguagem é um artifício constantemente utilizado nas narrativas cinematográficas. Desde clássicos fellinianos - por exemplo - a produções mais recentes (Adaptação, de Spike Jonze, é, talvez, meu favorito). O "filme dentro do filme" é, se bem manejado, um eficaz instrumento na elaboração e na prática da sétima arte. Por achar prazeroso ter a oportunidade de conhecer e entender um pouco mais sobre o fazer cinema, obras metalinguistícas sempre me atraem.

Adaptado a partir da série de quadrinhos American Splendor, Anti-Herói Americano retrata a vida e obra de Harvey Pekar (Paul Giamatti), autor das publicações acima citadas. Harvey trabalhava como arquivista em um hospital. Quando conheceu Robert Crumb (James Urbaniak), amante e escritor de graphic novels, percebeu a necessidade de criar suas próprias histórias. Mas, diferenciando-se dos demais, Harvey pôs nos gibis histórias de seu dia a dia em sociedade. Histórias sobre suas angústias, alegrias, frustrações. Diálogos e personagens reais que o autor reproduziu em diversos quadrinhos (ilustrados por outros artistas, já que Harvey, como o mesmo afirma, não consegue desenhar uma linha reta), cujo sucesso resultou em idas ao Late Night, de David Letterman. Apesar da maior visibilidade, Harvey permaneceu no underground literário, o que desencadeou inúmeros acontecimentos que são magistralmente "lidos" nesse filme.

Lidos por que todo o filme é contado "em forma" de gibi. Cenas com títulos, as figuras interagindo com os atores; todo o universo ilustrado nas obras de Harvey é trazido fielmente às telas. A narração em off, feita pelo Harvey real, é totalmente adequada (se ele conta suas histórias nos gibis, por que não contar suas histórias em seu filme?) e pode ser vista, também, como uma crítica aos que desprezam a presença da voz "guia". Ver, no filme, as pessoas que originaram aqueles personagens é algo interessantíssimo. A cena em que os reais Toby e Harvey conversam, enquanto os atores que os interpretam ficam em segundo plano, está impecável. Shari Springer Berman e Robert Pulcini dividem a direção - e o roteiro - com plena segurança e criatividade. É clara, mas sutil, a opinião dos diretores na fala de uma antiga colega de faculdade de Harvey, quando a mesma, comentando sobre um livro, diz que a obra "não tem aquele final feliz de Hollywood. Mas é verdadeiro, o que é raro hoje em dia".

As atuações extraídas do elenco são igualmente aplaudíveis. Paul Giamatti está sensacional como Harvey. As cenas em que o personagem aparece com a voz comprometida demonstram a capacidade cômica da ator - que também brilha nos momentos dramáticos. Hope Davis retrata otimamente a esposa de Harvey, Joyce Brabner, e Judah Friedlander faz o público rir interpretando o nerd assumido Toby Radloff, amigo do autor. A disponibilidade dos verdadeiros personagens também é digna de mérito; nem todos exporiam suas vidas como eles fizeram.

Um filme que exala metalinguagem, nos fazendo refletir sobre o próprio cinema e, fundamentalmente, sobre o viver, sobre as pessoas, sobre o filme dentro da vida de cada um e suas direções, roteiros e montagens. Uso, aqui, as palavras de Charlie Kauffman em Sinedóque, Nova York: "Há milhões de pessoas no mundo. E nenhuma delas são figurantes. Todas são protagonistas de suas próprias histórias". Apesar de a mídia enaltecer, por razões óbvias, o american way of life, minha (nossa) vida, simples e sem flashes, é, sim, tão importante quanto a do mendigo da esquina e a da modelo do ano. Posso não ter a atenção social recebida pela modelo, mas é a partir da minha vida "despercebida" que evoluirei como humano. E é nessa despercepção que amamos, choramos e rodamos, diariamente, nossa autobiografia.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Lutador

Fracasso. Possivelmente uma das palavras mais fortes em nossa gramática e que mais tememos um dia acontecer em nossas vidas (ao lado de 'guerra' e 'casamento' - a segunda foi só para descontrair, ok?). Pode ser definida como "não conseguir atingir um objetivo, uma meta; oposto de sucesso". O cinema norte-americano - e a mídia, de modo geral - costuma exaltar os 'winners', pessoas que ascendem socialmente (ou afetivamente). Dá mais audiência a trajetória vencedora de um Robinho do que a tragédia familiar do mendigo da esquina. E quando, vez ou outra, retratam o sofrimento alheio, os meios de comunicação apelam para a dramatização, espetacularização da vida real. É raro, portanto, obras tão tocantes e verdadeiras como "O Lutador" de Darren Aronofsky.

Randy "The Ram" Robinson (Mickey Rourke) é um famoso e prestigiado lutador dos anos 80. Vinte anos após seu ápice profissional, Randy já não mais se encontra no topo (apesar de contínua popularidade) e, ao término de um intenso embate, sofre uma parada cardíaca. Os médicos o diagnosticam e aconselham o pugilista a abandonar os ringues. O conflito pessoal de Randy é demonstrado com competência pelo diretor estadunidense. Observe como a câmera de Aronofsky acompanha Rourke sempre por trás, similar às entradas dos lutadores nos ringues, o que intensifica a idéia das "lutas" diárias do personagem. Dignas de aplausos, também, são as cenas dos combates, altamente bem filmadas e de um realismo pouco visto em produções do tipo. Por diversas vezes, me questionei: "Cacete, Rourke fez isso mesmo ou a caracterização dos dublês foram, assim, tão perfeitas?". Mas sabendo do histórico de Mickey, na vida real, como boxeador, creio ter sido ele mesmo a realizar os golpes.

Mickey Rourke que, diga-se de passagem, está absurdamente impecável. Apesar das semelhanças na carreira de Randy com a do próprio ator nova-iorquino (auge nos anos 80, posterior decadência. O que faz muita gente afirmar que Rourke se auto-interpretou), a atuação obtida por Rourke é merecedora dos prêmios recebidos até então e dos que possivelmente virão (Oscar). Com a respiração sempre ofegante, o ator cria um Randy desgastado físico e emocionalmente, cujo olhar angustiado revela os abalos de um caminho marcado por dores corporais e da alma. A cena em que Randy manifesta seus sentimentos à filha, tentando reatar os laços rasgados pelo tempo, eterniza, de maneira sensacional, o trabalho realizado pelo ator. Também indicada ao oscar, Marisa Tomei brilha no papel da dançarina Cassidy-Pam. Deixando muita menininha no chão, Tomei mostra toda sua sensualidade "quarentona" com um corpo estonteante (além de sua usual eficiência dramática). Um papel corajoso que poucas, indicadas ao oscar e bem-sucedidas como Tomei, aceitariam. Por fim, Evan Rachel Wood interpreta a filha do lutador, Stephanie, com surpreendente intensidade. Presente nas melhores cenas do longa, Rachel Wood alcança a melhor atuação de sua carreira e prova que, escolhendo os projetos certos, tem tudo para se tornar uma das melhores atrizes da sua geração.

O roteiro de Robert D. Siegel explora na dosagem certa todas os sentimentos em choque no universo de Randy. A cena em que Randy chama um garotinho para jogar nintendo mostra, com grandiosa sutileza, a solidão vivida pelo personagem. O declínio e a irreversibilidade temporal é exposto de forma mais aplaudível na "tarde" de autógrafos, onde o diretor também tem enorme mérito ao enfocar as "cicatrizes" dos veteranos lutadores, como a bengala e a cadeira de rodas de dois dos presentes. A importância que o atleta dá à sua imagem de lutador é lembrado acertadamente pelo roteiro, nas cenas onde o personagem insiste em ser chamado de Randy, seu nome "artístico" (Robin é seu nome de batismo), e quando o mesmo se "embeleza", tingindo o cabelo e bronzeando-se artificialmente.

"O Lutador", portanto, se revela de uma beleza única, delicada e raramente vista em filmes norte-americanos que abrangem temas como o fracasso, o insucesso. Ainda não pude assistir à "Milk", filme por qual Sean Penn recebeu indicação ao oscar desse ano (e que é, creio eu, o maior concorrente de Rourke na premiação). No entanto, seria uma injustiça imperdoável Rourke não levar a estatueta para casa. Penn já foi lembrado por "Sobre Meninos e Lobos", com todo mérito. Consequentemente, aposto que, em 2009, pela conturbada trajetória profissional e por sua atuação extraordinária, a academia presenteará Mickey Rourke por seu lutador "auto-biográfico". Que minha aposta se concretize.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Feliz Natal

Estreando na direção (de um longa), o ator Selton Mello faz de uma celebração natalina um primoroso estudo de personagens amargurados e aprisionados ao passado, contrapondo a suposta (e, talvez, imposta) alegria da data aos traumas e dores de uma família extremamente desestruturada. Com grandiosa sensibilidade, Mello alcança êxito em seu primeiro longa-metragem e se mostra um cineasta autoral e promissor.

O filme acompanha Caio (Leonardo Medeiros), um homem que busca, no natal, reconciliar-se com a família. Logo na abertura da produção Selton acerta ao retratar a profissão de seu personagem (narrativamente perfeita, a escolha de um ferro-velho como local de trabalho de Caio) com closes nos carros degradados, ferrugens e sujeira. Então Caio viaja à cidade grande com a esperança de reatar os laços afetivos com sua família. Ressalva para a tomada em que o cineasta mostra a estrada de dentro do ônibus, aparecendo simultâneamente um crucifixo no painel do transporte, o que simboliza a fé e/ou a esperança do personagem em relação àquela jornada.

Na festa, percebemos o distanciamento de Caio com os membros da família; alguns mais repressivos - como o pai (Lúcio Mauro) - e outros, porém, receptivos - caso da mãe (Darlene Glória) e do seu sobrinho Pedro (Fabrício Reis - valeu Laís por achar o nome pra mim) . O motivo desse mal-estar é, até então, implícito. O cineasta põe em cheque os valores de uma sociedade em que a compaixão e a solidariedade para com o próximo se fazem presentes apenas em datas comemorativas; tendo como seu maior exemplo o natal. Reparem como o cineasta expõe a contradição da data quando Fabiana (Graziella Moretto) - cunhada de Caio - distribui os presentes com uma alegria questionável e, ao mesmo tempo, Caio e seu irmão Theo discutem na escada da casa (e o segundo fato é, com certeza, o reflexo da realidade daquela família). E é como se ouvíssemos da boca do próprio diretor as palavras proferidas por Mércia ao questionar a celebração, chamando os convidados de aproveitadores, sanguessugas e vampiros (cena esta que tem um belo desfecho quando a câmera enfoca os cabelos brancos de Mércia desmaiada no banheiro, ressaltando a inflexibilidade do tempo).

A direção de arte - elaborada por Renata Pinheiro - representa fielmente a situação decadente em que se encontram os habitantes daquele "lar". Notem que os espelhos da casa são manchados, portas enferrujadas, paredes mofadas, a piscina suja, com folhas ao redor; não é assim tão longíqua a relação entre a casa da família com o ferro-velho em que Caio trabalha (e o estado da casa dos amigos de Caio também é deplorável). A fotografia, quase sempre escura e pesada, ilustra o sombrio estado emocional dos personagens. Detalhe para a belíssima tomada em que, após conversa com o irmão, Theo caminha e deixa a casa dos amigos. A câmera desfocada faz com que a silhueta de Theo lembre a de um alienígena, o que intensifica a idéia do distanciamento da relação entre os dois parentes.

O fato que mais me impressiona na produção, contudo, é como o roteiro utiliza-se de um instrumento fundamental - carro(s) - como guia para a melhor compreensão do espectador sobre o principal acontecimento envolvendo Caio. São diversas cenas em que carros estão ativamente presentes na narrativa: as crianças ganham carros de brinquedos na festa de natal; Caio hesita ao observar a velocidade de um veículo na rua; Caio observa um carro sendo consertado enquanto está na padaria e bruscamente deixa o estabelecimento; a inocente brincadeira de seu sobrinho ao dizer "verde...vermelho!", trocando as funções das cores no semáforo e, claro, o desfecho do filme, onde o carrinho de brinquedo pode ser observado na cômoda do quarto, ao lado dos remédios (Outro forte instrumento narrativo adotado por Selton. Observe como, na conversa com a mãe, Caio dá ênfase à importância de "tomar os remédios na dosagem certa", o que pode ser interligado ao final do filme). Outra maneira que o diretor usa para explicar os fatos é utilizar as aparições e visões tidas por Caio. Jamais tornando-as irreais ou exageradas, o estreante diretor acerta nestas aparições, desprezando os muitas vezes indevidos flashbacks.

Extraindo soberbas atuações de seu elenco (destaque especial para Leonardo Medeiros e Darlene Glória), Selton Mello cria uma esplêndida obra que analisa as relações humanas de forma sensível e verdadeira. O melhor filme nacional do ano, sem dúvida. Aguardo ansiosamente o próximo projeto deste que é um dos grandes atores de sua geração e, agora, um dos mais talentosos e promissores cineastas do país.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cashback

Eu não sou ávido freqüentador de festivais de cinema. Comecei, de fato, ano passado, quando fui pela primeira vez à Expectativa/Retrospectiva que ocorre anualmente no Cinema da Fundação. Vi A Casa de Alice, de Chico Texeira. Produção vencedora de alguns prêmios, o que, portanto, fez crescer em mim a vontade de prestigiá-la. É normal entre a grande parte dos espectadores de um festival assistir aos filmes "renomados", de cineastas e atores mais conhecidos. A fundamental função de um festival para mim é, porém, conceder acesso às produções que dificilmente chegarão aos cinemas mais perto de você ou, até mesmo, às locadoras. Assim, procuro sempre o desconhecido (jamais descartando Allen's e Lynch's). Muitas vezes quebro a cara: "que lixo!". Mas o prazer em descortinar espetaculares obras como Cashback (Sean Ellis, 2006) é impagável.

Derivado de um curta (indicado ao Oscar) homônimo do próprio Ellis, o longa inglês é um deleite visual cujo inteligentíssimo roteiro capacita ao diretor tomadas esteticamente desbundantes. Centrado no universo emocional de Ben (Sean Biggerstaff), o filme acompanha o jovem estudante de artes plásticas após o rompimento de sua relação com a namorada e, logo na primeira cena, o cineasta utiliza um slow-motion primoroso que se encaixa perfeitamente com a narrativa do filme e seu tema principal: o tempo. Sem conseguir dormir, Ben arranja emprego em um supermercado e logo cria amizade com seus exóticos amigos de trabalho. Refugiando-se contra a lentidão e a monotonia do passar das horas, Ben imagina poder parar o tempo para assim melhor apreciar a beleza das coisas e suas formas, escapando também da caótica realidade em trânsito.

É este "poder" de Ben o instrumento que Sean Ellis utiliza para criar belíssimas e inovadoras cenas em que o universo, estático, é apenas capaz de ser observado pelo personagem (e, obviamente, por nós). E a nudez exposta em diversos momentos - principalmente na cena do supermercado - jamais é apelativa; é delicada, quase natural, como de fato é aos olhos do personagem-espectador. Igualmente eficiente, o lado cômico de Cashback consegue divertir na medida certa, sem extroplar (deslizando apenas em algumas cenas envolvendo o lutador de kung fu Brian, responsável, no entanto, pela cena mais engraçada do longa).

Utilizando apropriadamente a narração em off, o roteiro de Ellis sempre enfatiza a idéia da importância do tempo e a onipresença deste em nossas vidas. Perceba como o placar do jogo, quando Ben congela o tempo após Jenkins levar uma bolada no nariz, aponta um segundo para o final do mesmo. O que demonstra notória sutileza do diretor, levando em consideração, acima de tudo, a relevância de "um segundo" para uma cena chave do filme, ocorrida em uma festa. Cena esta onde Ben profere uma das melhores falas do filme, quando conclui que "é possível parar o tempo, diminuir seu ritmo, mas não voltar e desfazer algo já feito" (algo do tipo, não lembro palavra por palavra), demonstrando tanto a vulnerabilidade do personagem em questão quanto a nossa, meros espectadores incapazes de interferir na história.

Maior surpresa positiva do festival Expectativa 2009/Retrospectiva 2008, Cashback torna-se memorável e um dos melhores filmes vistos, por mim, esse ano. Grandioso em todos seus aspectos, resta-nos torcer para o dvd do filme habitar o maioria das locadoras no país, possibilitando, assim, maior visibilidade para uma produção capaz de congelar o tempo.

sábado, 29 de novembro de 2008

Provas e Deserto Feliz.

Última semana de aula na faculdade e, conseqüentemente, semana de prova. Trabalhos pendentes, textos e mais textos suplicando por leitura. Despedir-se do ócio, ocultar o cansaço, rejuvenescer a paciência e estudar. Férias coming soon.

Assiti hoje ao novo longa de Paulo Caldas (Baile Perfumado), Deserto Feliz, estréia da semana na cidade. O receio em que previamente me encontrava - por considerar o tema, prostituição, trivial em recentes produções nacionais - foi rapidamente dissipado ao longo da projeção. Filmado em locações pernambucanas e alemãs, Deserto Feliz acompanha a trajetória de Jéssica, adolescente de 14 anos que, por "não agüentar mais", como a própria afirma à mãe, a monotonia da cidade, os abusos do pai e a precária condição em que vive a família, opta por uma escolha comum entre jovens na mesma situação: prostituir-se. E é admirável o simbolismo utilizado por Caldas em uma cena que a menina observa, e perturba, um tatu posto dentro do poço da família, "analogizando" o desejo de ambos: escapar daquele martírio .

Fugindo para a cidade grande (Recife, mas que poderia ser qualquer capital do país), Jéssica divide um apartamento com mais algumas prostitutas, fazendo deste praticamente um prostíbulo. E um detalhe interessante: o edifício escolhido por Caldas para a realização das filmagens, o famoso Holiday, é, de fato, um prédio recifense conhecido por seus moradores exóticos (que o adjetivo não denote qualquer tipo de preconceito, pois o mesmo é inexistente), como prostitutas e travestis. É então que a jovem do interior conhece Mark, um turista alemão, usuário de drogas, por quem Jéssica instantâneamente se apaixona.

O roteiro, parceria entre Caldas, Marcelo Gomes, Manoela Dias e Xico Sá, explora com sutileza os desordenados sentimentos vividos por aquelas mulheres. Em uma das melhores cenas do filme, Pâmela (Hermila Guedes) exterioriza à Jéssica sinceros temores e arrependimentos sobre sua vida, suas escolhas. E a tristeza no olhar de Hermila, homogeneizado aos aleatórios e dispersos sorrisos (resultado claro do uso de ílicitos), retrata fielmente a crua realidade dessas jovens que, por falta de oportunidade, necessitam vender o corpo para garantir o mínimo de estabilidade financeira. Outro ponto positivo no roteiro é a ausência das "legendas guias", muito comum em produções cujas locações passam de uma cidade para outra; o que seria totalmente dispensável em Deserto Feliz, pois o espectador sabe exatamente quando Jéssica foi para o Recife e, posteriormente, para a Alemanha.

Acertando em cheio na escolha dos atores, o cineasta pernambucano extrai impecáveis atuações de todo o elenco. Nash Laila surpreende em sua estréia cinematográfica, criando um personagem complexo, com aquela chama de esperança tão usual nos jovens se contrapondo às amarguras e angústias vivenciadas por Jéssica. O sempre competente João Miguel mais uma vez arranca risos do espectador, Hermila Guedes revive uma prostituta (Baixio das Bestas, O Céu de Suely) com o mesmo empenho dos trabalhos antecedentes e o alemão Peter Ketnath demonstra enorme segurança interpretando o par romântico de Jéssica, Mark. Todos os demais, apesar de menos tempo de tela, exercem com fervor seus respectivos papéis.

Vencedor de inúmeros prêmios em festivais importantes como o Festival de Cinema Brasileiro em Paris, Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e Festival de Cinema de Gramado, Deserto Feliz é merecedor de todos estes reconhecimentos acima citados e é sério candidato a melhor filme nacional do ano. O filme está em cartaz, no Recife, nos cinemas Rosa e Silva e no Multiplex Recife. Corram.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Funny Games US

Remakes sempre me deixam apreensivo. São inúmeros os casos em que o filme original é arruinado pelo sucessor, criminosamente manchando, de certa forma, o nome da produção primeira. No entanto, é surpreendentemente agradável quando uma refilmagem consegue se sobrepôr ao filme antecedente, incumbência essa não tão simples. O que dizer, porém, quando a produção refilmada é praticamente idêntica à primeira, sendo ambas realizadas pelo mesmo diretor/roteirista ?

Michael Haneke copiou, ao pé da letra, seu Funny Games de 1997, adotando as mesmas tomadas, ângulos, falas, trilha sonora e figurino. Apenas dois fatores divergem o Funny Games US (na verdade três, levando em conta a imposição do US na produção hollywoodiana) do alemão: o idioma e os atores. Torna-se questionável, então, a decisão de Haneke em "imitar" seu projeto precedente, cujos resultados foram positivos e deram ao diretor alemão visibilidade mundial. Não enxergo outra questão, a não ser a financeira, que tenha levado o cineasta a optar por esta refilmagem, mas deixemos as razões pessoais de Haneke para outro momento.

Iniciado com uma bela tomada aérea, o filme acompanha uma família que pretende passar um tempo em sua casa de interior, longe da cidade. Porém a traqüilidade quista pela família é logo dissipada com a chegada dos jovens Paul (Pitt) e Peter (Corbet) e seus joguinhos insanos e perversos, gradualmente elevando o "nível" com o decorrer da projeção. Matendo-se fiel até mesmo à mise-en-scéne presente no original, Haneke brinca com o público, criando diálogos (com a reciprocidade, obviamente, dependente de cada espectador) entre o personagem mais ativo e mandante das ações e nós, testemunhas oculares da situação em andamento. Mas, lembrando-nos de nossa fragilidade e incapacibilidade de intervir nas ações dos personagens, o cineasta, em uma determinada tomada, acompanha Paul na cozinha, calmo, preparando um lanche, enquanto na sala ocorre um disparo, gritos e sons de luta, deixando o espectador curiosíssimo e impaciente. E é elogiável a sutileza do diretor ao expôr, sutilmente, a não preocupação de Paul com o estado daquela família.

Escalando um grupo de experientes atores para a produção, o diretor obtém a mesma entrega e intensidade vistas no longa original (interpretados com grande competência por Ulrich Mühe, Susanne Lothar e os demais). Naomi Watts mais uma vez brilha, dosando bem o limite de sua dramaticidade; Tim Roth encarna com eficiência o pai incapaz de ajudar a família; Michael Pitt e Brady Corbet igualmente notáveis como os jovens torturadores e o pequeno Devon Gearhart que, apesar de ter menos tempo de tela, demonstra admirável capacidade dramática.

Contando com um elenco eficaz, Michael Haneke consegue recriar detalhadamente seu filme anterior, com não tanto impacto para os que o assistiram, mas com a competência já usual de um dos melhores diretores da atualidade.


Ficha Técnica:
Título: Violência Gratuita
Título Original: Funny Games US
Ano: 2008
Direção: Michael Haneke
Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Devon Gearhart
Duração: 111 minutos