A primeira seringa, nova e intocada, era destinada a Ludmila, também novata e virgem como aquele objeto tirado do plástico com cautela por Lou, o mentor. Os olhos de Ludmila brilhavam uma expectativa temerosa, esmagava os dedos contra a palma da mão com uma força assustadora; chamou a atenção dos demais. Outros dedos, calmos pela morfina, aterrissaram em seus ombros a acalmando, era Janette, compactada num vestido cor de café que fazia sua brancura reluzir como um refletor na sala nublada. Lou aproximava-se cantando em espanhol, uma mão dentro da calça, outra segurava a seringa como quem segura um bolo de aniversário, sentou-se ao chão e, entre as pernas de Ludmila, pegou-lhe o braço e esticou como um tapete. Janette ainda acalmava a pulsação de Ludmila quando a agulha penetrou sua epiderme, atingindo uma ansiosa veia. Como um deslize, a heroína confundiu-se ao seu sangue limpo e em poucos segundos seu coração acelerou, um guepardo ao céu aberto, um céu de vários sóis cujo calor invadia todo o corpo da adolescente. A euforia imediata chega como uma locomotiva, Janette a beija na clavícula esquerda, desce à cintura, novamente usa os dedos para acalmá-la, sabe que não é preciso, mas insiste em seu desejo e Ludmila ludibriada morde o lábio inferior e tem a plena certeza de estar n’outra galáxia. Em poucos minutos, retorna do nirvana e, ao perceber Janette mergulhada em sua vagina, empurra-lhe a testa com os punhos; um repentino mal-estar assola Ludmila e, aos prantos, sente-se como vomitasse ao revés. Tenta manter-se em pé, mas os joelhos parecem duas molas e desfalecem, cai junto a Janette que lambe o chão em círculos. A dois metros, Lou continua sua interpretação, agora sem roupas, a sala ziguezagueia e Ludmila grita desesperadamente, até uma tapa fechar sua boca. Zonza, da droga e do golpe, deixa as costas deitarem no piso frio e ali fica, lutando contra o estômago, o esôfago em chamas.
A serenidade pós-terremoto se faz presente; Janette dorme de boca aberta no pé do sofá, Lou calou-se, enfim, e beija um homem cujo umbigo se assemelha a um pneu, também ele se mantém em silêncio. Ludmila chora um riso mudo, os braços finos repousam paralelos, queria levantar e ir pra casa, mas a falta de força e de sentidos a apagam suavemente. Acorda uma hora depois, talvez menos, alguém toca, no violão, uma melodia conhecida. Uma voz rouca surge, Ludmila reconhece de imediato, It’s all over, baby blue, é o homem do umbigo-pneu que canta com um cigarro na boca. Tentava assobiar, mas o cigarro o impede e, entre o cigarro e o assobio, escolhe o primeiro, superando a ausência do segundo. Antes da estrofe final, um estrondo grave vem da rua; alguém bate o carro numa árvore. A motorista sai sorrindo, como se atravessasse o ponto de chegada, é alguém do prédio ao lado, Lou manda um beijo da varanda e ela mostra o dedo com vigor. Ludmila sorrir com apenas um lado da boca e olha o relógio: 04:54 da manhã, às 14:00 precisaria estar na redação, era domingo. Mal se despediu, pegou a bolsa quase vazia, na escada lembrou-se do casaco, voltou, Janette o segurava com um olhar de arrependimento. Pegou rapidamente e passou novamente pela porta que por muito tempo entraria. As pernas caminhavam trêmulas; doíam o pescoço, as costelas. Chegou no apartamento, despiu-se e, como estava, se jogou no colchão úmido com a intenção de recuperar as energias para mais um dia de trabalho no maldito jornal. Não pregou os olhos.
sábado, 3 de abril de 2010
domingo, 28 de março de 2010
dolor.
Amortecer a vida. Ao mergulhar na literatura, interrompo o gatilho eruptivo da relação humana que, como um incansável carrapato, não desgruda e suga-me o resto de força e vitalidade que ainda mantenho sob os ombros. A comunicação é, definitivamente, fundamental ao robustecer terreno, que não condiz, porém, aos berros jornalísticos, cuspidas conjugais e ao sangue esparramado em cada metro cúbico do planeta-granada. Alcancei um estágio particular em que esquivar-me das vozes intermináveis me transmite uma serenidade inigualável. Minha anti-sociabilidade cresce diariamente como uma barba não feita, e a gilete largada no canto da pia poderá ter uma função mais produtiva daqui pra frente. Não, não matarei um ser sequer, apesar dos olhos de isopor. Apenas deixarei na humanidade marcas inconfundíveis cujo pólen difundirei, como um vento independente, entre os operários dos grandes e pequenos feitos. E não o farei por heroísmo ou pretensão parecida, mas pela necessidade que observo em cada alma de obter, ainda aqui, nesta encarnação, uma vacina que abrande os transtornos de um mundo propagandista, estelionatário.
Acaba a tinta.
Não adianta. Incrementar a escrita, chamar atenção por metáforas elogiáveis, nada preencherá o lago vazio que perdura em minha mente. Não escreverei livro algum e, mesmo se o fizesse, para quem escreveria? Quem leria os psicóticos lapsos do meu cérebro, quem, fora eu e meus vultos? Sou a sombra da minha própria sombra. Ao menos ela, minha sombra-corpo, tem um formato definido e rígido. Descobri, ainda há pouco, a beleza de um trovão intenso; todos tendem a se reunir, ficar próximos pelo medo da percussão de ruídos. Há uma hora desprezei a existência humana, agora rezo aos trovões; não cessem. Ninguém ao lado. Alexandra dorme, n’outra cidade. Quão perto, quão distante, as pedras do asfalto - dormem elas também. E é quando tudo fecha os olhos, quando menos ouço pulsações, que mais tremo como as ramificações de um raio. Recife desafoga o peito, mas mantém-se forno. A chuva rascunha um clima ameno. Risca, joga no lixo. Como fiz. O mormaço do quarto apedreja. Caio no caixão de cerâmica, sinto o suor se mover; o chão, o cão, o vão receptor. Fujo à sala. Nossa almofada me sorri. Está fria e apaga de mim as brasas.
Mi mundo es vacío si no tengo su sonrisa.
Acaba a tinta.
Não adianta. Incrementar a escrita, chamar atenção por metáforas elogiáveis, nada preencherá o lago vazio que perdura em minha mente. Não escreverei livro algum e, mesmo se o fizesse, para quem escreveria? Quem leria os psicóticos lapsos do meu cérebro, quem, fora eu e meus vultos? Sou a sombra da minha própria sombra. Ao menos ela, minha sombra-corpo, tem um formato definido e rígido. Descobri, ainda há pouco, a beleza de um trovão intenso; todos tendem a se reunir, ficar próximos pelo medo da percussão de ruídos. Há uma hora desprezei a existência humana, agora rezo aos trovões; não cessem. Ninguém ao lado. Alexandra dorme, n’outra cidade. Quão perto, quão distante, as pedras do asfalto - dormem elas também. E é quando tudo fecha os olhos, quando menos ouço pulsações, que mais tremo como as ramificações de um raio. Recife desafoga o peito, mas mantém-se forno. A chuva rascunha um clima ameno. Risca, joga no lixo. Como fiz. O mormaço do quarto apedreja. Caio no caixão de cerâmica, sinto o suor se mover; o chão, o cão, o vão receptor. Fujo à sala. Nossa almofada me sorri. Está fria e apaga de mim as brasas.
Mi mundo es vacío si no tengo su sonrisa.
sábado, 20 de março de 2010
it's happening
sempre chega o dia
onde a odisséia festiva dos homens é desativada
como uma bomba-relógio que esquece da existência do tempo
a sentimentalidade insana e controversa
regressa
aos lares das perfeitas famílias mutiladas
não há membros completos
o filho não mais ri ao pai
dois irmãos vagam de bocas costuradas
a mãe trai
todos eles, criminosos que o sistema não pune,
lamentarão infinitamente suas atitudes
e o peso cairá em seus ombros como um trator ribanceira abaixo
um viaduto de dor partido ao meio, onde também me encaixo.
consigo ver
antes que anoiteça
a ferocidade das próximas horas
pressagio aquele destino inevitável dos errantes
desço à praça em busca de calma
minhas chagas perpetuam a insônia
há meses não sonho, nem pesadelo
ninguém se apercebe
restaram os venais
amontoados num porão de afagos pré-pagos
que se desfaz, caso não traga lucros
o perito oculta
a campainha silencia
a informação esconde as evidências de uma conclusão indesejável
e o cigarro do cotidiano apaga-se com maestria
antes que amanheça
desejo um momento de veludo, macio e sereno, antes da guilhotina irreparável.
a praça atenua o tormento.
o hálito de estômago vazio me lembra
a fome é impaciente, como eu
subo as escadas no ritmo solar
todas as portas de todos os corredores estão entreabertas
um rottweiler rói o fêmur de seu antigo dono
no nono andar
o sangue da senhora do 1003 escorre até onde piso
chego, décimo primeiro, meu último esconderijo
um antílope descansa em meu sofá
seu olhar virulento é como uma expulsão
apenas apanho a carteira, por força do hábito
e sento para descansar
ao lado do leão.
amanhã estarei longe, mais perto disso tudo
uma jornada termina, outra tem início
o universo é rotativo, rotineiro roteiro adverso
e por já saber o desfecho, por precaução me despeço.
onde a odisséia festiva dos homens é desativada
como uma bomba-relógio que esquece da existência do tempo
a sentimentalidade insana e controversa
regressa
aos lares das perfeitas famílias mutiladas
não há membros completos
o filho não mais ri ao pai
dois irmãos vagam de bocas costuradas
a mãe trai
todos eles, criminosos que o sistema não pune,
lamentarão infinitamente suas atitudes
e o peso cairá em seus ombros como um trator ribanceira abaixo
um viaduto de dor partido ao meio, onde também me encaixo.
consigo ver
antes que anoiteça
a ferocidade das próximas horas
pressagio aquele destino inevitável dos errantes
desço à praça em busca de calma
minhas chagas perpetuam a insônia
há meses não sonho, nem pesadelo
ninguém se apercebe
restaram os venais
amontoados num porão de afagos pré-pagos
que se desfaz, caso não traga lucros
o perito oculta
a campainha silencia
a informação esconde as evidências de uma conclusão indesejável
e o cigarro do cotidiano apaga-se com maestria
antes que amanheça
desejo um momento de veludo, macio e sereno, antes da guilhotina irreparável.
a praça atenua o tormento.
o hálito de estômago vazio me lembra
a fome é impaciente, como eu
subo as escadas no ritmo solar
todas as portas de todos os corredores estão entreabertas
um rottweiler rói o fêmur de seu antigo dono
no nono andar
o sangue da senhora do 1003 escorre até onde piso
chego, décimo primeiro, meu último esconderijo
um antílope descansa em meu sofá
seu olhar virulento é como uma expulsão
apenas apanho a carteira, por força do hábito
e sento para descansar
ao lado do leão.
amanhã estarei longe, mais perto disso tudo
uma jornada termina, outra tem início
o universo é rotativo, rotineiro roteiro adverso
e por já saber o desfecho, por precaução me despeço.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
struggle
teimas quilometrar o amor
enquanto o tango dos dias
adverte-nos em chiados
o manto da liberdade rasgando-se linha a linha
e meus olhos de cerâmica, dois pedintes, zelam secretamente
todos os nodosos traçados
por quais caminharemos até os ossos
não há vagas aos sorrisos infinitos
esculpiremos cada dia nossa auto-imagem
para nos lembrar do fandango longíquo
como a calma vivida em Ponte de Sor
onde a fuligem urbana esbarra numa espécie de escudo invisível.
teus lábios xilogravados em meu tronco
como fosse hoje,
recordo,
numa tela de gesso
embaixo da velha nogueira
que presenciou, tantas vezes, nossa agitação hormonal
em harmonia
com Deus
com os demais
com o mundo habitado por zumbis
a memória lateja
um aeroporto de saudades alojado em mim.
ponho o vinil riscado
e ele canta tua presença pela casa
amanhã nos reencontraremos
decoro frases a serem ditas
ao pé do ouvido
e temo você não gostar
e temo por mim duvidar
se é realmente isso que nos fará conviver melhor
sem tanto vermelho no rosto
como a inércia da velhice.
são quatro e quinze da manhã
e o travesseiro frio não adormece
junto ao meus olhos vidrados na janela
de onde a cidade parece estática
exceto o oceano.
enquanto o tango dos dias
adverte-nos em chiados
o manto da liberdade rasgando-se linha a linha
e meus olhos de cerâmica, dois pedintes, zelam secretamente
todos os nodosos traçados
por quais caminharemos até os ossos
não há vagas aos sorrisos infinitos
esculpiremos cada dia nossa auto-imagem
para nos lembrar do fandango longíquo
como a calma vivida em Ponte de Sor
onde a fuligem urbana esbarra numa espécie de escudo invisível.
teus lábios xilogravados em meu tronco
como fosse hoje,
recordo,
numa tela de gesso
embaixo da velha nogueira
que presenciou, tantas vezes, nossa agitação hormonal
em harmonia
com Deus
com os demais
com o mundo habitado por zumbis
a memória lateja
um aeroporto de saudades alojado em mim.
ponho o vinil riscado
e ele canta tua presença pela casa
amanhã nos reencontraremos
decoro frases a serem ditas
ao pé do ouvido
e temo você não gostar
e temo por mim duvidar
se é realmente isso que nos fará conviver melhor
sem tanto vermelho no rosto
como a inércia da velhice.
são quatro e quinze da manhã
e o travesseiro frio não adormece
junto ao meus olhos vidrados na janela
de onde a cidade parece estática
exceto o oceano.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
a passagem
A cada passo da minha patrulha solitária, relia os ensinamentos apreendidos durante a permanência em Recife, onde o sol enegreceu a vista tantas vezes e pela última. Uma rua em aclive me avista e temo olhar através da nuca, mas algo além de mim fez-me virar; percebo não mais estar na capital pernambucana, estou acima, diante das nuvens que um dia, dois, me prenderam em casa. Retorno a cabeça à rua e ela me fita, flutuante, como um escorrego ao revés, e nada, nem mesmo a película, me faria hesitar por um instante, dois. Sinto um ar salubre em meus pés. Um protótipo de sorriso move minhas faces ensopadas, mas o receio bravateia em meu estômago, ou no lugar onde antigamente ele permanecia. O avião aterrissa. Sentimento de nostalgia invade-me o espírito e, instantaneamente, o cultivo de uma vida inteira floresce perante meus olhos. Amigos de seis meses, amores infinitos, lares cruciformes, o pouco dinheiro arrecadado, as veias abertas, a escassez de paz; tudo à tona. Minha estadia terrestre, o expresso dos meus dias como flashbacks de um filme mal-escrito, porém coerente. Vejo uma fatia de meu pai, correspondente ao tempo unido em casa. Enxergo a universidade, seus jardins, meus professores, livros. Uma cena de La Lengua de Las Mariposas, trechos das músicas que tanto aliviaram o enjoo. Meus vinte e um anos em minutos, um curta-metragem.
Última lembrança, a sombra de uma faca. E ainda a sinto penetrando meu dorso, como uma angústia repentina. Sem dúvidas Orlando, cuja vida destruí três vezes sem notar movimento algum. É raro tatear a realidade nas coisas. Quanto mais me apeguei às feições, menos pulsei vida, como se a carne levasse ao árduo caminho do arrependimento. Queria pedi-lo, ainda pela boca, sinceras e infinitas desculpas, mas não há mais corpo errante, resta-me apenas essa imagem de mim mesmo, o resto do que eu um dia fui. Mesmo livre da carcaça, dói-me algo, superior à existência passada, como se uma dor futura fosse pressentida. De longe, braços em forma de galhos perambulam agonizantes; eu não estou só. O som se torna cada vez mais claro, gritos.
A Terra é um exercício.
Última lembrança, a sombra de uma faca. E ainda a sinto penetrando meu dorso, como uma angústia repentina. Sem dúvidas Orlando, cuja vida destruí três vezes sem notar movimento algum. É raro tatear a realidade nas coisas. Quanto mais me apeguei às feições, menos pulsei vida, como se a carne levasse ao árduo caminho do arrependimento. Queria pedi-lo, ainda pela boca, sinceras e infinitas desculpas, mas não há mais corpo errante, resta-me apenas essa imagem de mim mesmo, o resto do que eu um dia fui. Mesmo livre da carcaça, dói-me algo, superior à existência passada, como se uma dor futura fosse pressentida. De longe, braços em forma de galhos perambulam agonizantes; eu não estou só. O som se torna cada vez mais claro, gritos.
A Terra é um exercício.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
a long song
son house mantinha a voz
a vitrola iluminada de azul
"you know, love, love is a worried old heart disease"
incontestável
estiquei-me ao violão debruçado na parede cinzenta
um homem nasce da madeira
e canta como um pássaro no descanso de sua árvore
os dedos não mais são meus, são do homem
e o assisto com arrepios na nuca
desfilando no vendaval de acordes
os pés descalços, em pedais invisíveis,
atraem a atenção das formigas
visão privilegiada
tentei me abaixar, mas estava imóvel
só via
o homem golpeando as cordas com um afeto agressivo
enquanto as suas trepidavam no interior
calara-se a vitrola
assistia comigo o quadro em criação
e por mais alguns minutos a vida encontrou-se em resumo
surdo de melodias que valem um movimento de translação, sinto saudades do homem
do instrumento-ser cuja sonoridade me fez bater asas aos anos 60
um nevoeiro desagasalha a rua há dias
falta-me ânimo, sobra falta
para onde voara o artista?
talvez embasbacasse jovens celibatárias que vão em busca de corpo nos bares da lua
quem sabe não toca para uma platéia planetária
aqui é que não está, o artista
foi-se junto aos meus anos
deixou-me rugas e um bisturi dentro do peito
esquecido
um sumiço sutil e brutal
como há de ser a morte da alegria
entre os dias
quase sem perceber.
pela manhã pensei tê-lo reencontrado, quando abracei Marieta debaixo da adequada chuva
e senti seu busto febril me esquentar dos pés à cabeça
pela manhã.
a vitrola iluminada de azul
"you know, love, love is a worried old heart disease"
incontestável
estiquei-me ao violão debruçado na parede cinzenta
um homem nasce da madeira
e canta como um pássaro no descanso de sua árvore
os dedos não mais são meus, são do homem
e o assisto com arrepios na nuca
desfilando no vendaval de acordes
os pés descalços, em pedais invisíveis,
atraem a atenção das formigas
visão privilegiada
tentei me abaixar, mas estava imóvel
só via
o homem golpeando as cordas com um afeto agressivo
enquanto as suas trepidavam no interior
calara-se a vitrola
assistia comigo o quadro em criação
e por mais alguns minutos a vida encontrou-se em resumo
surdo de melodias que valem um movimento de translação, sinto saudades do homem
do instrumento-ser cuja sonoridade me fez bater asas aos anos 60
um nevoeiro desagasalha a rua há dias
falta-me ânimo, sobra falta
para onde voara o artista?
talvez embasbacasse jovens celibatárias que vão em busca de corpo nos bares da lua
quem sabe não toca para uma platéia planetária
aqui é que não está, o artista
foi-se junto aos meus anos
deixou-me rugas e um bisturi dentro do peito
esquecido
um sumiço sutil e brutal
como há de ser a morte da alegria
entre os dias
quase sem perceber.
pela manhã pensei tê-lo reencontrado, quando abracei Marieta debaixo da adequada chuva
e senti seu busto febril me esquentar dos pés à cabeça
pela manhã.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
à/a tarde
Distraí as crianças enquanto Neuza retirava de cima da mesa os pratos quase limpos. A comida realmente havia sido mínima, mas a fome arrasadora dos pequenos contribuiu com mais ímpeto à exterminação de qualquer indício dos grãos de arroz e feijão ali previamente postados. Até as moscas pareceram ter sido ingeridas, elas que sempre buscavam em nossos restos a nutrição necessária para durar um dia mais ou dois. Nenhum zumbido ouvia-se, só o de Neuza, um assobio melancólico cuja fraqueza intraduzível me fez querer tapar os ouvidos. Os gritos das crianças fizeram o papel dos meus dedos, quase cochilei com Luca pulando no meu colo, a tarde teimava em não anoitecer e aquela claridade insólita impossibilitava-me de mergulhar na liberdade do sono. Levantei do sofá, um oceano de formigas alastrando-se em minha perna, manquei ao quintal e vi Boris, dormindo tão tranqüilamente que desejei deitar-me ao seu lado, ali mesmo, na areia mijada, e dividindo a suavidade de um sonho canino, transformar-me, por que não, em um labrador, como ele. Eu latiria o dia inteiro.
Não quis perturbá-lo; um animal respeita o espaço do outro. Pensei na minha cama, desforrada como sempre, e senti uma náusea que me dificultou a respiração. Os pulmões pareciam encharcados de frituras, deixei as pálpebras despencarem e contei até dez. E mais dez. Há sete dias estava sóbrio, mais ébrio que nunca, e salivei à imagem de uma vodca qualquer que a mente me trouxera subitamente. Minha dívida no Bar do Fred era vergonhosa e eu não conhecia boteco algum onde se permitia fiado. Ainda mais para um estranho com minha aparência, se é que ainda a tenho. Entrei no banheiro e, sentado no vaso, ouvi Luca ou Léo, não consegui diferenciar. Berrava aos prantos por motivos que eu preferi nem imaginar. Neuza sobrepôs a voz e um silêncio pós-batalha instalou-se na casa. Não sei o que era mais angustiante: a mudez sofrida ou o barulho intermitente de uma felicidade enganosa. Lavei o rosto no intuito de arrancar os olhos, os sentidos, a consciência que um dia me metamorfoseou a este nível. A água limpa, mas não cura. Mantenho-me em pé, ou o chão me mantém, e tento amiudar a dor que vaza do olhar em forma de rio. Recordo dos tempos lúdicos em Niterói, onde a vida era um deslize e Neuza me jurou fidelidade eterna.
Cá estamos nós.
Não quis perturbá-lo; um animal respeita o espaço do outro. Pensei na minha cama, desforrada como sempre, e senti uma náusea que me dificultou a respiração. Os pulmões pareciam encharcados de frituras, deixei as pálpebras despencarem e contei até dez. E mais dez. Há sete dias estava sóbrio, mais ébrio que nunca, e salivei à imagem de uma vodca qualquer que a mente me trouxera subitamente. Minha dívida no Bar do Fred era vergonhosa e eu não conhecia boteco algum onde se permitia fiado. Ainda mais para um estranho com minha aparência, se é que ainda a tenho. Entrei no banheiro e, sentado no vaso, ouvi Luca ou Léo, não consegui diferenciar. Berrava aos prantos por motivos que eu preferi nem imaginar. Neuza sobrepôs a voz e um silêncio pós-batalha instalou-se na casa. Não sei o que era mais angustiante: a mudez sofrida ou o barulho intermitente de uma felicidade enganosa. Lavei o rosto no intuito de arrancar os olhos, os sentidos, a consciência que um dia me metamorfoseou a este nível. A água limpa, mas não cura. Mantenho-me em pé, ou o chão me mantém, e tento amiudar a dor que vaza do olhar em forma de rio. Recordo dos tempos lúdicos em Niterói, onde a vida era um deslize e Neuza me jurou fidelidade eterna.
Cá estamos nós.
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