segunda-feira, 1 de abril de 2019

repentina tinta.


lapsos na cronologia
um tempo sem letras
postas neste papel fictício
escrevi na mente
nos meus olhos quando te via
sorrir como se eu fosse 
a pessoa mais linda do mundo
tantas poesias fiz
sem digitar caracteres 
em silêncio, livros inteiros
ninguém lerá, exceto tu 
nenhuma roda literária
exceto o círculo da tua alma
bailarina, que rima com qualquer
verso nos sonetos do meu amor
é bonito saber que, em todo o
mundo, essas palavras 
nunca foram ditas
essas letras 
nunca escritas
eu tenho certeza
talvez no outro lado
do universo,
nas nuvens de magalhães,
outro pedaço de criatura
ecoe minhas palavras
como um espelho repete nossos corpos
talvez a gente acorde de repente
em novos campos de água-doce
livres do susto constante
de viver no mundo de
pânico e circo 
talvez a gente se lembre
e ria como idosos saudosos
de como caminhamos leves
mortos de saudade 
de um futuro incerto, perto 
mais de ilusão que 
materialidade
tudo muda
um dia seremos pensamentos
daqueles que virão
onde estaremos, meu amor?
não há como saber
não hoje
mas hoje o amor no peito
é suficiente
para camuflar o desamparo 
nos nossos DNAs. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

no térreo.

olha em volta
milhares de rosas
em rodas que giram
e giram até o fim
das estações indefinidas
a continuidade dos parques
os araçás azuis e transcendentais
povoam, hoje, nossas estantes
mudamo-nos de lá
- tanta incompreensão -
para cá, outro lado da vida
almofadas, bancos amarelos
aquela parede por pintar
e nos instantes o que era
mudo e míope e fincado
dá protagonismo ao leve-viver
não nos contemos
tanto contentamento
a vida sem temor
a morte reduzida
a um capricho do planeta que
pensamos conhecer
olha em volta
milhares de risos
em ritmos que miram
nossos corpos astrais
escuta?
as estrelas continuam
chamando nossos nomes.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

insidewar.

go away
dizziness thoughts
fear, this invisible dinosaur
I feel like it's not me
I feel as if control
no longer belong to my feet and hands
what's the error of perishing?
in wanting to scream until the mind is adjusted?
go away
I don't want to romanticize
ache
this poetry means nothing
in my rebellious sea
little monsters
painted in fresh ink
all over my skin
nothing, my suffering is nothing
compared to the anguish of my contemporaries
I will improve
I will resurrect the conscience
return to the path of calm
and walk like one who flies.

turn anger
in bouquets of smiles
find out love
beyond despair and detachment
hear the music
of a clear night
there is no darkness
if we open our eyes.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

baque e reboque.


pequeno caos nas ondas da noite
meu mapa do tempo embaralhado
perdidos cacos de mente
do cão que fui e me tornei
ouvistes meus uivos
o dilacerar do abdômen
a fera a morrer de medo
da selva, sua mãe.

carne cortada
consciência tomada
pelos monstros, meus filhos
se vi luz, era em ti
afastavas sombras
com o busto calmo
respiração de mar morno
enquanto fui só agitação
visitei o monte das pedras movediças
e morri só de pensar
em jamais sair.

saí, enfaixado
deitado na maca, mesmo em pé
atropelado pelo caminhão
e te agradeço, pelo caminho
mostrado e trilhado junto
por tentar entender o que
até pra mim é incompreensível.

deito-me, cansado
grato à Vida e seus grãos
de sabedoria,
ensinados,
mesmo em dor
sempre amparado
deito-me, amado
grato ao Sonho,
o meu amor
realizado.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

de mim

às vezes é bom
ouvir o lago numa tarde sem vento
sem medo olhar o espelho
sem medo sentir a noite
banhar o corpo nu
sinto falta da solidão
de quando compartilhávamos apenas
natureza e um riscado de céu
o cheiro da luz
que vinha do gás
sonhos sobre tantos
modos de dizer não
pedimos por voz
gritamos por vez
hoje ninguém se escuta
estas minhas sílabas
virarão caracteres
e se perderão como folhas
de um bosque chuvoso.

quanto tempo, na última semana
permiti à minha essência
criar?
obrigações têm me roubado
as horas, moderno jeito de
sobreviver a trancos e barrancos
ontem um barraco pegou fogo
madeira que era tronco
raízes despedaçadas
suicídios nos jornais, diários
nada conforta
e mesmo assim acatamos
escrituras sagradas mortais.

universo
universo
meus versos nada têm
mas te oferto
para um dia, deitado
no infinito dos
teus braços
não mais
eu temer
o deserto.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

retornar (mas a vida é maior que o foguete caído)

quando volto sinto
a loucura
essas vozes banhadas
de nada
vazio, estranha estrada
que leva a uma rua
onde ninguém cresce
sento ao lado dos inimigos
um dia desejaram minha morte
hoje engolem minha presença
quantas balas atiram sorrisos falsos
todos os dias subo e desço
a mesma escada
todas as horas sinto fome
sede de viver longe daqui
cansado dos mesmos homens
cansado das mesmas barbas
o repetido bater dos teclados
dos operários loucos por números
refugio-me e respiro meu ar
meus motivos para levantar
preciso fortalecer meus músculos
e construir minha casa.

garoa lenta escorre sobre a cidade
a tarde caminha nas calçadas
estudo o silêncio e o desejo
dentro de mim
querer, ansiar
morder o lábio
apertar os dedos
te amar, rasgada
costurar o beijo
lugar nenhum do mundo
ser tão lindo como a calma
que transpira cor de rosa
das faces apaixonadas
a onda que nunca
conseguimos domar.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

post

deixo minhas botas marcadas
pelos pneus do asfalto
no canteiro da porta de casa
amacio os calos
desatarraxo os botões da camisa
na vila passam vendedores
e sabiás em busca de sombras
repousarão, um dia
no coração dos homens
quando soubermos cultivar
galhos sem nos ferir
ouço o pipilar dos veículos de carga
se fechar os olhos posso vê-los
deslizar sobre as imperfeições da BR
vivos, levando ao interior
pedaços da cidade
enquanto desacelero, pé no freio
e leio as sutilezas do dia
as fotos na carteira
bilhetes que não jogo fora
objetos que explicam o mundo
da minha vida
meu museu serão minhas palavras
e você a principal peça
exposta em cada texto
cada miúdo pensamento transcrito
anoto-os para deixá-los eternos
pois um dia, descalço do corpo
minha mão
não mais
escre-
ve-
rá.

cume invertido.

 
Os conflitos espirituais se encarnam e recobram o abrigo miserável e magnífico do coração humano. Ninguém está resolvido. Mas todos estão transfigurados. 

O Mito de Sísifo, Albert Camus



atrás da porta
há sempre um lobo
pernas cruzadas, olhar amigo
manipulando seu maxilar
enquanto mastiga, mastiga, mastiga
às vezes me surpreende
em cima dos móveis
escalando paredes
no trabalho
nos telhados avermelhados
dos antigos prédios
já o vi em Recife
na noite de Kadikoy
seu nome é conhecido
pode ser lido nos livros
não nestes versos

além da cabeça
há sempre um lodo
negrume escorregadio, cheiro forte
passeio e me lambuzo
perene, de costas para o sol
quantos homens já não caíram
quantos ainda irão adiar a luz
somos ineptos
ou conscientes do nosso mal?
versos, palavras, são navalhas
só compreende quem se corta
e mete o dedo na busca
de encontrar entre as vísceras
nossa verdadeira face
nossa alma de carne e osso.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

deixem meus loucos em paz

fora, fora daqui palavras enlatadas, esquecidas, tapadas com a mão que agora abre os dedos para deixar escorrer um salvamento. na escrita se pode tudo. a partir de uma única língua, formar quarteirões de frases conexas ou não, sentido há no peito de quem sente. posso sobrepor sílabas, palavras que queira ajuntar no ralo um porão escuro vigiei desde sempre, ainda menino afeiçoado a perguntas sobre o sofrer nas notas do choro do cão beethoven. criação arte gramática bolas de tênis de um lado para o outro, filhos de pais separados, um texto que nasce para o autor romper, perpetuar a eterna desconstrução de refazer-se, e refazer-se, e desfazer. 

enviar um feedback, ser solícito a filhos da puta, olhar no espelho e, sim, compreender-se um dos filhos da puta que choramingam migalhas, pequenos pombos inventores de máquinas e bíblias sangradas. o santo vinho, o deus-álcool, religiões abastadas no vício dos lares, "afaste-se de mim pessimista infernal!, pois o senhor é meu pastor e eu sou uma ovelha morta de medo do mundo", me dê aqui meus medicamentos fitoterápicos, conexão com a natureza que adoramos decepar. 

Olhou em volta, a praça havia se tornado uma espécie de palco para seu monólogo alucinado. Garotas riam de dentro de seus uniformes da escola, uma mais sensível se excitava, velhas comerciantes depositaram suas mercadorias no chão de areia e observavam Fagundo com inusitada compaixão. Havia homens da lei, noiados, imigrantes secos de distância, uma verdadeira plateia aos pés do poeta arrebatado, do filósofo sem dentes: só voz, garganta seca e uma alma estuprada. 

Fagundo envergonhou-se pois tinha urinado de prazer, tanto prazer em falar. Tapou o ventre com a mochila rasgada e caminhou para fora, fora daqui. Desenlatou-se da praça, esquecido, com as mãos a se cobrir, nada mais escorria, nada mais queria escrever. Debaixo da marquise, procurou uma pedra. Não lembra como conseguiu acendê-la.


sábado, 25 de março de 2017

menininho.

até o próximo mês
viro criança outra vez
sujo de lama e sorriso
cabelo voando na praia
olharei as estrelas
do mar
na busca da terra encantada
domarei as grotescas 
criaturas de terno e gravata
ah, eu gritarei aos pulmões 
no meio do povo da missa
contra tudo e sem perder
jamais a ternura e a ironia 
declarações de dependência 
em meio a cartas cifradas
nas linhas de uma letra torta
tortadas nas caras fechadas
adoçar e colorir 
pedir peito e chocolate
enfiar o dedo no cão que late
destruir rima de verso feioso
preciso nem mudar nome
nem de endereço
trabalhar pra ninguém
deitar e gozar no berço 
por isso acho que
até o próximo mês 
eu viro criança outra vez.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

aequilibrĭum.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Esvaziados os corpos, deitados sob a escuridão de uma lâmpada apagada num pequeno quarto. Que diferença faz uma lâmpada. O suor escorria nas costas. Eu pendia a perna esquerda de lado, o abafado me maltratava, por que ainda precisamos quase morrer para amar, pensei de olhos abertos, sem nada ver. Silêncio, completo silêncio, pois não se podia fazer barulho. Nunca se pode fazer barulho. O perigo em chamar atenção. Todos nós, com uma mão atravessada na garganta. Quieto. E os carinhos recomeçavam.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Manuais, dicas de felicidade eterna ou prolongada, táticas para prolongar o prazer, cinco coisas comprobatórias de que você é bom de cama, faça um teste rápido. Quem goza, ama. O gozo é o meu pastor e nada me faltará. Sempre falta. Onde há vida, há inacabamento, escreveu um barbudo educador no século passado. Somos seres inacabados. Incompletos, buscamos incessantemente preencher vazios existenciais com trouxinhas de pequenas alegrias. Minúsculos potes de tranquilidade passageira. Não é o suficiente.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Porque a fome sempre foi inerente à espécie. Fome de tudo. Mas me pergunto, enquanto vejo dois jovens dividirem um saco de batatas fritas no metrô, se não nos tornamos escravos de tantas necessidades. Parece-me que uma goiaba nos bastaria, às vezes, mas optamos por pedir um prato de inhame com charque. Entupir-nos de tudo e todos, até sentirmos essa humana sensação de se estar cheio. E se eu vomitar? Exagero meu. Prometo não me alongar, só vem mais um parágrafo em frente e nem vou escrever o que acho sobre a anestesia dos vícios.

Nunca satisfeita, nunca saciada.

Um dia publicarei também um livro de auto-ajuda para vender nas prateleiras ou ser compartilhado nas redes sociais. Farei frases de efeito para serem carimbadas em belas imagens de casais e campos verdíssimos, é mais fácil ler imagens. Entre as frases, direi que amor é equilíbrio. Resumir-se às necessidades do corpo é perder a chance de sentir o imenso prazer de tarefas banais, como caminhar juntos por longos minutos ou permanecer em silêncio, do alto, contemplando a cidade. Compromisso não deve estar no vocabulário dos amantes: relacionar-se é, antes e acima de tudo, uma escolha. Dizer não é necessário e renova a individualidade de cada um. E eu direi também, nas frases de efeito para serem compartilhadas, que diariamente nós precisamos catar o egoísmo e orgulho, como carrapatos, para evitar que sangremos sem perceber.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

pão de cada dia

por entre tuas coxas
deslizar meus dedos
abre-alas
amanhecer o dia
molhando-te a pele
banhos de saliva
leve beijar teus lábios
maior e menor
e escorregar
desdobrando-se paredes
iluminando covas úmidas
deliciosa brincadeira de caça
como quem rasga e mastiga
consenso de corpos
nossa sublime arte de submergir e
emergir, exaustos
instantes de arremate onde
amorpaixãoloucura alimenta
e cura,

horas de mundo ignorado
o relógio das nuvens mais lento
na infância não se ensina
que podemos flutuar?
refazer-me em teu seio
remodelar-te em minhas mãos
artistas dessa fome de viver
nosso pão
nosso papo
nosso papel revelado
se elevar.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

tua vida.

acham que sabem
onde repousas tua alma
perdem tempo, fedelhos
e gargalham de si próprios
cheios de diagnósticos
sobre teus passos que só de longe observam

nada sabem
da verdade e tua pele
que repele tais olhares
avinagrados
são tolices
o que pensam sobre ti
a ira porque
queriam tocar teus pés
deitar em teu colo e
desligarem-se do mundo

se pudessem, criariam um espetáculo
apresentariam aos teus olhos-de-bronzita
teriam só pra si os aplausos
destas mãos calmas nuvens
mãos hoje minhas
que limpam a terra podre
do meu peito
quando volto para casa
no fim do dia
depois de mais um
fim do mundo

te vejo
do alto da tua atalaia
decifrar capítulos do nosso mundo
fragmentado pelos anos
te espreguiças,
despencas na rede e
os sonhos ganham vida
és vida
és única
caminhas, não te esqueças:

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O som de bombas dentro de um quarto

E volta-se à estaca zero, dedos percorrendo o teclado claro do notebook, a vida retorna à literatura quando a realidade nos mastiga. Recomponho-me. Não tenho mais idade para desequilíbrios emocionais, pueris, os medos entre os dedos trêmulos de quem escreve como se deve: para sobreviver. Danem-se manuais, crônicas de amor reescritas tanto quanto artigos científicos, poemas com notas de rodapé. Mas preciso me recompor, não adianta querer agredir (como eu quis), querer matar (como eu quis) essas noites sentenciadas pelo lodo dos séculos. O esgoto da humanidade, aterrado pelo progresso ou simplesmente ignorado por nossas cabeças sempre distraídas. A Era das distrações em massa. O espetáculo dos desatentos, no globo da morte que é o planeta, a rodar sob o vácuo de um universo inalcançável, rodar, rodar, peregrinamente dar voltas e mais voltas. À estaca zero.

No passado e na ficção, dias de horrores, prazeres intermitentes, buscas por respostas e afirmativas cravadas com ponto final. O quanto sabemos? Se lêssemos as prateleiras de todas as bibliotecas, se nos entregássemos aos labores empíricos do campo e da cidade, quanto saberíamos realmente? Não lhe incomoda ter consciência plena dos nossos limites? A liberdade inventada para nos alegrarmos com as amarras; piscinas são cópias de lagos, condicionadores de ar são cópias do vento na montanha, filmes são cópias de nossas ilusões.

Quem desce às correntezas do ser antevê o infinito e seus tentáculos. Como nos primeiros milênios, ainda morremos de medo. Tateamos pelas florestas internas, engatinhamos, ainda choramos como bebês. Nunca cresceremos? Preciso , preciso me recompor e deixar que a vida me embriague até apagar. Olho as veias em relevo nos braços: aqui corre sangue, aqui escorre. Venceremos a vida? Ou continuaremos a viver?



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Berlim, 19 de dezembro de 2016.

pneus assassinos
passaram por cima dos meus filhos
tiraram o amanhã e seus planos
de final de ano
outro final reservado
massacrante, no início de uma noite fria
na terra onde a guerra brotou
um muro que foi derrubado
dessa vez foram meus filhos a cair
sob o aço do caminhão
vi pela televisão
as faixas de isolamento
os pedaços de vidros sujos de vermelho
no dia que ela foi à feira
no dia que ele comprou chocolates
nem sequer foram avisados
se soubessem, esqueceriam formalidades natalinas
diriam o quanto amavam
e perdoariam seus próprios receios
ouso dizer que se abraçariam à espera do impacto
mas agora o silêncio se reproduz
um eco oco,
uma luz de penumbras,
nas gotas de chuva que caem sem falar
sinto o meu rosto e o mundo
as várias estradas e os desertos
geleiras e minérios
meus cabelos da cor do céu negro de Berlim
sinto os mundos e os meus rostos
numa suspensão de movimentos
viver, volver, voar
talvez de cima se explique
o que daqui só faz chorar.

sábado, 26 de novembro de 2016

teria o direito?

eu que leio os últimos jornais
eu que dirijo com segurança
eu que bato o pé e mordo
eu que lambo com gosto
eu que vibro na alegria
eu que encolho na tristeza
eu que peço menos gritos
eu que apago na claridade
eu que me obrigo a cumprir
eu que deixo por fazer
eu que mudei tua vida
eu que você não quis ver
eu que sinto tanto mar
eu que cedo meu corpo a estranhos
eu que vejo os desertos do inferno
eu que limpo a mobília da casa de Deus
eu que nunca mudarei de nome
eu que fui atirado nas covas como Daniel
eu que tateio as utopias de paz
eu que me torno violento,

teria o direito
de abraçar teu corpo
enxergar tua alma
amar espírito&pele
sem precisar me explicar?

(de dentro do teu quarto te observo dormir como nos primeiros dias de nossa estada no Paraíso de manhãs verdes e continentes agrupados pela sorte de existir o destino).

domingo, 20 de novembro de 2016

artevista

pintaria telas inteiras
as curvas da via láctea
dois cães a caminhar
sobre as águas
termais da Antártida
o veludo vermelho
no céu entardecido de calor
cada dedo uma cor
deslizando sobre o branco
arte nascida das digitais
para colorir teus anseios, seios
e seiscentos meios de sorrir
para mim, pestanas cansadas
discorreria sobre o mundo
e como o sexo era tratado
na metafísica de Schopenhauer
as mãos de tinta
um mutirão de quadros
pintaria telas inteiras
só pra dar sentido aos teus
dias mais intranquilos
o mundo lá fora como um filme
podemos pausar, quer ver o final?
não gosto de estragar
surpresas no roteiro
a vida e seus monitores
ao nosso redor
sentaríamos nus e preocupados
com a falta da tinta rosa
olharíamos as primeiras horas
da manhã
e teus cabelos,
ruivos de sol,
completariam
os ciclos que nunca se fecham

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

placas.

as leves estranhezas
o suco amargo das
impaciências
ao fim do dia
no meio da tarde
em frente ao computador
eu que preciso ler
eu que preciso corrigir
o texto dos outros
escrevo e me refugio
de tantas merdas
o gosto de esgoto na boca
as leves impurezas
que compõem o ser humano
elementos básicos
de toda a literatura mundial
escrevemos sobre excrementos
aquilo que o corpo expulsa
aquilo que não podemos fazer na frente dos outros
o que farias, leitor
se me visses agora
liberto das bijuterias poéticas
dest meu textículo?
as leves asperezas
entre um homem e uma mulher
crianças com facas afiadas
um sono entrecortado
pela pele a lixa (a arranhar)
pelos pelos o lixo (nosso ar)
administre-se
precavenha-se
depile-se
case-se
siga as instruções
feitas por quem se perdeu
olhe além, e veja se vê
algo além de mim.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

breathe.

sobreviver aos murros
morros de reprovação
mirar de longe a vida
ajustar a vista, o joio separado
o que não se recicla
reinventarmos
as estações do ano
e as manchetes de amanhã
relermos os livros
sem os pontos finais
sem queimá-los
como no futuro imaginado de Truffaut
quantas placas de proibições
quantas éticas de papéis
ainda se levantam muros
cercas acerca de nós
obrigatoriamente
deixar a barba crescer
obrigatoriamente
cobrir mais o corpo
obedecer
senão a morte ronda
o perigo em cada quarteirão
nas esquinas da mente
monstros devoram corações
moinhos de meninos
reclamávamos das mesmas coisas
no século passado
gritávamos nas mesmas ruas
em busca do sentido
o trêmulo equilíbrio de quem contesta
é bom ir com calma
senão a morte ronda
e os vasos quando quebram
e os vidros que estilhaçam
são recolhidos à pá
e jogados no lixo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

to Q.

nos meus vulcões e furacões, vejo tua mão
se ferido, te feres
ao caminhar em trilhas cinzas
episódios da vida real
há dias que a gente se sente
anuviados e pequenos
Deus está conosco (sempre esteve)
mas não O percebemos
ocupados em nossas distrações
de algum modo, precisamos sofrer
pagar débitos?
dívidas por existir?
devem nos atingir as lágrimas da massa
sem que notemos, batem em nossos peitos
o choro dos hospitalizados
o desespero de quem empunha a arma
e as mortes da madrugada anterior
me acalmas, com a alma da tua mão
sobre a casa do meu ser
acendes as luzes, sentas comigo e te deixas ficar
emocionados no amor
que tanto precisamos aprender

em tempos como esses
nós damos e damos de novo.